terça-feira, 16 de setembro de 2008

Safo Novella

Terminei de ler Safo Novella (2008) de Silvana Ruffier Scarinci pela Algol Editora e Edusp. O sub-título é Uma poética do abandono nos lamentos de Barbara Strozzi, Veneza, 1619-1677. Essa obra foi uma pesquisa da autora realizada pela Fapesp sobre essa compositora, a Barbara Strozzi. A capa do livro é de uma tela feita da compositora, pelo seu irmão. Eu fiquei fascinada em conhecer a história dessa mulher que por ser filha bastarda, não tinha dote e não podia se casar. Mesmo assim ela teve quatro filhos ilegítimos. No final do livro há um CD belíssimo com composições de Barbara Strozzi interpretado pela autora na teorba, a soprano Marília Vargas, na viola de Gamba, Sérgio Álvares, e nos violinos, André Cavazotti e Luis Otávio Santos.

Obra The Penitent Magdalene de Francesco Furini

Pouco se sabe sobre Barbara Strozzi, mas há indícios de que teria sido uma cortesã. A autora pesquisa e mostra a condição da mulher em Veneza, ainda mais aquelas que não tinham a proteção de um dote ou um nome nobre. Por sorte o pai de Barbara Strozzi era um homem culto, que criou uma academia onde se reuniam os principais intelectuais da época, o que deve ter ajudado a Barbara Strozzi ter se tornado uma grande compositora de cantatas e lamentos. Safo Novella é um livro musicalmente bastante teórico, entremeado estão os estudos sobre o período em que Barbara Strozzi viveu e principalmente a condição das mulheres da época. Um dos capítulos que mais me atraiu foi: Barbara Strozzi e as Mulheres de Veneza. A autora fala bastante também sobre a influência dos poemas de Safo, que foi uma poetisa lírica da Antigüidade, que era voga na época de Strozzi e sobre o maneirismo que influenciou também a música e a poesia da época da compositora. Há vários poemas no livro.

Obra Sansão e Dalila de Luca Giordano

Eu anotei muitos trechos de Safo Novella de Silvana Ruffier Scarinci. Vou selecionar alguns:

“Filha ilegítima de Giulio Strozzi – por sua vez filho ilegítimo de uma importante família florentina – Barbara Strozzi não receberia um dote, talvez por sua condição de ilegitimidade, ou talvez pelas convicções libertinas de seu pai, membro da Academia veneziana onde mais ferozmente se discutiam questões relativas à mulher. O valor dos dotes, subin­do consideravelmente no final da Renascença, era indicador de status social, e servia de base para o sucesso econômico da nova família. O casamento era a única posição social plenamente aceita para uma mulher."

“Barbara Strozzi permaneceria circunscrita no espaço semi-doméstico da academia criada por seu pai. Continuam misteriosas as razões pelas quais ela não teria encontrado acesso ao mundo verdadeiramente público da grande novidade musical do momento – a recém-criada ópera.”

“Estupros em Veneza faziam parte do macabro cenário da vida das mulheres da Sereníssima, onde a violência sexual era fato comum, algo quase esperado e inevitável para as mulheres de classes inferiores. Pouca esperança teriam elas de que fosse feita justiça contra as agressões – muitas vezes cometidas por grupos de homem – uma vez que era aceita a idéia de que o corpo feminino podia ser violado. “

“A música de Barbara limitou-se, portanto, ao gênero mais restrito da Cantata. Con­siderada um gênero menor, a Cantata foi negligenciada pela musicologia, provavel­mente por causa da atração exercida pela ópera, desde seus primórdios, sobre público e teóricos. No entanto, a produção de Cantatas na Itália seiscentista é imensa, e a maio­ria dos compositores dedicou-se a ela. Absorvida avidamente por uma sociedade que praticava a civil conversatione, a Cantata pode ser mais bem compreendida ao exami­narmos os hábitos deste ambiente do ócio cortês, no qual o gosto pela arguzia e pela arte da finzione se tornaram modus vivendi do homem de sociedade.”

Barbara Strozzi

“Escutai, amantes, a razão, oh, Deus,
Que me traz o pranto:
No adorado e belo ídolo meu,
que tão fiel cria, a fidelidade está morta...

Mas se a fidelidade me é negada
Por aquele inconstante e pérfido,
Que ao menos fiéis se conservem
Até à morte, as lágrimas!”

Música do post: Hor Care Canzonette Monteverdi canta Ensemble Barbara Strozzi


Youtube: Strozzi-Giusta negativa & Monteverdi-Pur ti miro



e

Beijos,
Pedrita

6 comentários:

  1. Berlo texto Pedrita. É na verdade um enorme prazer passar por aqui.
    Beijinhos
    Paula e Rui Lima

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  2. Excelente texto. Parabéns.
    Strozzi foi igualmente uma grande cantora, e um exemplo, numa época em que as mulheres era relegadas para actividades primárias.
    Soube impor-se pelo seu talento.
    Chegou mesmo a estudar com Cavalli.

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  3. Olá, Pedrita,
    Fiquei muito feliz em receber a sua visita em meu blog Harmonia, no JBonline! Obrigado pelo comentário.
    Foi ótimo também por me levar a conhecer o seu excelente blog! Parabéns por seus posts, todos admiráveis! A obra da Barbara Strozzi é realmente fascinante, assim como a sua vida de desafios às circunstâncias da época. Que continuemos a nos visitar! Beijos,
    Rodolfo Valverde

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  4. É um livro que com certeza terei na minha biblioteca. VaLeU!

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  5. paula e rui, obrigada.

    quintela, as composições são lindas.

    rodolfo, quanta honra, obrigada pelo retorno.

    aqueta, vc vai gostar.

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  6. Prezada Pedrita,

    Obrigado pelo comentário sobre o CD do livro "Safo Novella" - eu e toda minha equipe técnica agradecemos pelo "belíssimo" e pela sua sensibilidade.

    Grazie!
    (prod. e equip. téc. do CD)

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Bons comentários!