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segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Adú

Assisti Adú (2020) de Salvador Calvo na Netflix. Uma frase final resume bem o filme e infelizmente muitos vão concordar: "cada um cuida dos seus problemas". Eu só consigo pensar como o ser humano é torpe. Adú tem três histórias absurdas, ligadas de alguma forma.

Adú (Moustapha Oumarou) e a irmã (Zayiddiya Dissou) viram o que não deviam. Eles viram caçadores matando um elefante pra tirar as presas em uma reserva florestal. Fogem. Eles vivem em uma comunidade muito pobre em Camarões, mas vivem com a mãe, tem amigos, mas a bicicleta os denunciam e os dois irmãos fogem. Uma parente consegue dinheiro do pai para que eles fujam até ele. Dá pra imaginar que imigrar ilegalmente é algo tão impossível e violento, que nada, mas nada mesmo vai indo minimamente razoável. Massar é interpretado por Adam Nourou. Fui até olhar no mapa, Adú viaja ilegalmente de Camarões até o Senegal de avião, depois em transportes clandestinos até o Marrocos, e a nado até a Espanha.
Outro personagem tem uma ONG que tenta localizar os caçadores de elefantes. Insensível com os moradores locais, é um verdadeiro troglodita. Ele (Luis Tosar) tem uma relação dificílima com a filha rebelde (Anna Castillo). A terceira trama é que começa o filme, quando imigrantes tentam pular a cerca para entrar na Espanha e há conflitos com poucos policiais. É um filme insuportável de ver, mas muito, muito necessário, chega de desumanidade. No final o filme informa que mais de 70 milhões de pessoas fogem de seus países e que a maioria são crianças.
Beijos,
Pedrita

terça-feira, 30 de abril de 2019

Canção de Ninar de Leïla Slimani

Terminei de ler Canção de Ninar (2016) de Leïla Slimani da Tusquets Editores. Eu queria muito ler esse livro, tanto que pedi de aniversário. Eu tinha visto várias matérias e entrevistas com a autora marroquina e queria muito ler, mesmo sabendo que seria uma leitura difícil. A autora baseia seu livro ficcional em um fato hediondo, uma babá que mata as crianças que cuidava, esse é o ponto de partida. A autora ganhou o Prêmio Goncourt pela obra.

Obra de Mostafa Assadeddine

Após o capítulo da mãe chegando em casa e vendo as filhas mortas, o livro passa a contar a história deles por vários olhares, é ambientado na França, a patroa é uma imigrante e a babá é branca. O começo até parecia uma leitura mais linear, mas vai tendo desdobramentos inteligentes, um texto ácido sobre a condição das mulheres e de serviçais. A mãe tem dois filhos, parou de trabalhar, não está dando conta de cuidar da casa e das crianças, vive desleixada, cansada e não consegue controlar os filhos. Resolve voltar a trabalhar e contratar uma babá. Eu compreendo que na primeira semana devem ter ficado encantados com a babá, exaustos, sem vida própria, deve ter sido um alívio chegar em casa e ter tudo arrumado. A babá, sem pedirem, fazia faxina na casa também, as crianças limpas e na cama dormindo. Mas depois de 15 dias eu já tinha mandado essa mulher invasiva embora. Eu detesto pessoas que começam a mandar na casa, a serem autoritárias.

Obra Oil, Oil, Oil (2011) de Mounir Fatmi

Mas o casal também comete uma sucessão de erros, inclusive de não mandá-la embora aos primeiros sinais de autoritarismo. Adoram encontrar a casa limpa, mas nem pensam na exploração que fazem do serviço. Não procuram pagar por esse serviço, nem contratar uma faxineira para ajudar a babá. Aceitam o serviço gratuito de uma pessoa pobre com satisfação. A babá também comete o erro básico de viver a vida dos patrões. Ela ama e cuida dos filhos como se fossem seus, da casa como se fosse sua. Não cuida da casa dela, nem ao menos paga o aluguel. Aos poucos ela passa a dormir no trabalho e vai ficando. Muitos invejam essa família, a babá branca impecável, a maioria tinha babás de pele escura, essa babá que fazia tudo, estava sempre disponível, ninguém percebia os distúrbios. Não é normal um profissional abdicar da própria vida para viver a do outro. Quando o casal começa a perceber que eles têm medo de ofender a babá, que era grosseira sempre que os patrões não faziam o que ela determinava, que eles começam a agir só quando a babá não estava em casa, escondidos, com medo da reação da babá é que eles passam a pensar em mandá-la embora, mas por medo vão adiando. Assustador. Canção de Ninar acaba sendo muito psicológico. Fala de exploração de funcionário, imigrantes, de distúrbios familiares, maternidade, mundo feminino. Os capítulos são todos contatos por mulheres, em alguns momentos é a mãe que conta, outros a babá, mas há parágrafos com relatos da vizinha, da filha da babá, obra impressionante.


Beijos,
Pedrita