segunda-feira, 4 de maio de 2009

Os Maias

Terminei de ler Os Maias (1888) de Eça de Queirós. Vocês se lembram que eu recentemente vi a minissérie Os Maias de Luiz Fernando Carvalho. Minha irmã separou então o livro para eu ler. É exatamente a edição dessa capa da Ateliê Editorial, capa belíssima, edição primorosa. Eu gosto muito desse escritor, meu preferido ainda é O Crime do Padre Amaro, mas adoro o seu estilo e suas obras. Mesmo Os Maias tendo muito do Romantismo, o autor é sempre ácido e surpreendente. Tudo aquilo que parece belo e puro pode em determinado momento se tornar sórdido e medonho.


Obra Retrato de Uma Mulher Portuguesa (1900) de Ernesto Ferreira Condeixa
Os Maias é um livro extenso que passa em duas gerações pelo menos. Atráves de dois personagens, pai e filho, o autor mostra as diferenças das educações e suas correntes ideológicas. Pedro é criado dentro de todo o atraso da religião, com todo o seu fervor católico e seu atraso intelectual. Carlos Eduardo já é criado pelo avô, dentro da corrente do liberalismo, onde a ciência, a filosofia e a formação intelectual é a base de sua formação. Há ainda uma terceira personagem, Maria Eduarda, que é criada em meio a vida noturna de Paris, muitos amigos, sua mãe tinha muitos amantes e muitos clientes. E por último, Ega, que é filho de uma mãe carola e apesar de renegar todas as suas origens do catolicismo ferrenho, é do dinheiro dela e do seu amigo Carlos que ele vive, porque boêmio confesso, espalha suas ideias e suas transgressões em discursos na vida noturna, mas não transforma nada do que pensa e idealiza em fonte de renda, não escreve artigos, nunca concluiu um livro e está envolvido em confusões. Carlos Eduardo também não precisa trabalhar. Se forma médico, escreve alguns artigos, mas como o próprio Ega diz, com dinheiro aos poucos tudo é possível se esquecer. Com dinheiro é possível viajar, se mudar, conhecer outras pessoas. O dinheiro atenua as tragédias da vida.



Conversei bastante com minha irmã sobre a adaptação para a minissérie que é belíssima, mas traz algumas pequenas modificações com o objetivo de ficar mais dramático, denso com um pouco de exagero no melodramático. Marília Pêra interpreta Maria Monforte nos últimos capítulos da minissérie, quando Maria Monforte já não existia mais e tinha morrido do coração, não de tuberculose. Maria Monforte morreu quando vivia com a filha em Paris. A filha inclusive viveu muito com a mãe, não ficou tanto no convento. Ficou lá só o tempo suficiente dos estudos e sua mãe a visitava com regularidade. A personagem da Eva Wilma aparece muito pouco no livro, é mencionada muito rapidamente, umas três vezes. O próprio avô do Carlos Eduardo aparece pouco e ele não é contra o Carlos Eduardo comprar a casa dos Olivais, não interfere no relacionamento do neto, fica inclusive bem distante dos fatos. O Ega pede ao Vilaça que conte ao Carlos sobre a sua irmã, e o Vilaça acha um horror aparecer naquele momento mais um herdeiro para dividir a herança. Pouco se incomoda com a revelação do parentesco dos dois e repete umas três vezes que é uma maçada a herança ser desmembrada. Tanto que Maria Eduarda recebe pouco do que lhe cabe. Ela não quer a herança, mas mesmo assim, o Vilaça só passa uma boa quantia, mas muito aquém do que ela realmente tinha direito. A espanhola teve alguns momentos com o Carlos Eduardo no período da faculdade, muito rapidamente. Não aparece depois e nem tampouco lê a mão de Carlos e fala da mulher que não era casada. Eusébiozinho e sua irmã aparecem muito pouco, ela menos ainda. Ele ainda aparece um pouco, mas não tanto quanto na minissérie. As festas de Maria Monforte são somente mencionadas muito rapidamente. E Carlos não vai se despedir da irmã quando ela vai partir na estação de trem. Assim que toda a história trágica aconteceu, Carlos Eduardo viajou com o Ega para a América do Norte e depois passaram por uns dez anos viajando pelo mundo. É quando voltam para Lisboa, para o Ramalhete e então que acontecem aquelas cenas iniciais da minissérie. Mas não parece pela caracterização dos dois que dez anos haviam se passado. A sensação é que a minissérie carregou um pouco a mão no melodrama. Apesar das diferenças, a minissérie é impecável e belíssima!
Obra Vista da Penha de França, Lisboa (1857) de Tomás d'Anunciação
Anotei alguns trechos de Os Maias de Eça de Queirós:

“A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete.”

“Assim acontece com as estrelas de acaso! Elas não são duma essência diferente, nem contêm mais luz que as outras: mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e se esvaem, parecem despedir um fulgor mais divino, e o deslumbramento que deixam nos olhos é mais perturbador e mais longo...”

“Ega declarou muito decididamente ao Sr. Sousa Neto que era pela escravatura. Os desconfortos da vida, segundo ele, tinham começado com a libertação dos negros. Só podia ser seriamente obedecido, quem era seriamente temido... Por isso ninguém agora lograva ter os seus sapatos bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde que não tinha criados pretos em que fosse lícito dar vergastadas... Só houvera duas civilizações em que o homem conseguira viver com razoável comodidade: a civilização romana, e a civilização especial dos plantadores da Nova Orleans. Por quê? Porque numa e noutra existia a escravatura a sério, com direito de morte!...”
As duas telas são de pintores portugueses e foram realizadas no período que o livro foi publicado.



Beijos,


Pedrita

12 comentários:

  1. Uma sugestão apenas:
    "O Conde de Abranhos" de Eça.

    Depois diga se gostou.

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  2. Oi,passei pra conhecer seu blog, bjs boa semana

    aguardo sua visita :)

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  3. Pedrita,
    bacana, o comentário.
    Os Maias era o livro favorito de meu avô, que o relia pelo menos uma vez por ano.
    Até hoje, quando releio Os Maias ou ouço falar do livro, penso nele e a leitura se torna ainda mais agradável.
    Beijos,
    Júlio

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  4. Olá Pedrita!
    Maravilhosa esta crónica sobre "OS Maias". Em tempos que já lá vão, a nossa televisão transmitiu numa mini-série a adaptaçao ao pequeno écran deste livro fabuloso que estud´mos no liceu. Um dos actores da série era o Rubens de Falco, que na época ficou célebre aquando da transmissão da novela "Escrava Isaura".
    Regressando ao Eça recomendamos o livro mais amado aqui da casa "A Cidade e as Serras".
    Beijinhos
    Paula e Rui Lima

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  5. e a biografia do diretor de Os Maias, Emilio Di Biasi, já está pronta... escrita por mim... hehehe... já está no forno da Imprensa Oficial... e deve ser lançada em breve... te aviso e faço questão da sua presença (e da do 007 também), heim? beijocas, Erika Riedel

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  6. Concordo com a Paula e o Rui: Cidades e as Serras é o meu Eça preferido (aliás, eu também tenho esse livro e posso te emprestar).
    Gostei da série mas achei o livro muito melhor. Para a série ficar beeemmmm comprida, eles tiveram que incrementar as histórias dos personagens secundários ( os Gouvarinhos, a espanhola, Maria da Cunha). Realmente, a série ficou muito melodramática (não aguentava mais a Ana Paula Arósio chorando nos últimos capítulos) e o livro é mais ácido do que melodramático.
    Denise

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  7. Ainda não li... mas já esta anotado... estava com saudade desse espaço... fiquei muito afastada da blogosfera mas agora estou voltando...

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  8. Um clássico!!! Apesar de ter lido resumos e resenhas, não li a obra inteira ainda. :(

    Beijos!

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  9. eça é o único escritor que eu tenho a obra completa, para relaxar prefiro "a cidade e as serras", mas confesso que os maias são o melhor retrato do portugal do sec XIX, embora o livro não necessitasse de ser tão longo, é mesmo um clássico. a escrita de eça é uma maravilha.

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  10. Olá Pedrita

    Do Eça eu gosto de todos, mas os Maias eu nem sei quantas vezes o li, lembra-se do gato de D. Afonso da Maia? D. Bonifácio de Calatrava, o leal amigo que o acompanhava à mesa nas refeições.

    Beijinhos
    Isabel

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  11. nossa, esse post bombou!

    quintela, esse eu não li.

    júlio, olha só, é a minissérie preferida da minha mãe. ela me conta sempre quantas vezes viu esse ou aquele capítulo. diz q muitas vezes repete antes do ator a fala daquela cena.

    paula, rui e dê, eu tenho e li a cidade e as serras, mas não é o meu preferido.

    erika, que máximo, estarei lá.

    ana, q bom q voltou.

    carla, vc vai amar

    geocrusoe, eu amo livros extensos. adoro pq se perdem neles mesmos e revelam muito.

    isabel, o gato é fofo!

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  12. mENIA,
    AINDA PRECISO LER ESTE LIVRO, EU GOSTO MUITO DO eÇA DE qUEIROZ, AINDA MEU ESCRITOR PORTUGUES PREFERIDO.

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Bons comentários!