quarta-feira, 3 de maio de 2017

Vulgo, Grace de Margaret Atwood

Terminei de ler Vulgo, Grace (1996) de Margaret Atwood da Marco Zero. Uma amiga que tem um gosto literário parecido com o meu perguntou se eu queria uns livros que ela estava doando. Eu nunca tinha ouvido falar nessa autora, amei essa capa e escolhi esse para começar. Essa capa maravilhosa é da Leda Catunda.

É um livro de ficção inspirada na história de Grace Marks (1828-1873). Aos 16 anos ela foi acusada de assassinar duas pessoas junto com James Mc Dermott e condenada à morte. Por pressão e por falta de provas conseguiram que ela não fosse morta e sim somente presa, com prisão perpétua. O estilo narrativo de Margaret Atwood é absolutamente incrível. A autora começa com o poema que fizeram na época a Grade Marks e com esse desenho dos dois acusados. James Mc Dermott foi morto.

Obra Vila Rounstone em Connemara de Letitia Marion Hamilton

Grace Marks nasceu na Irlanda. Seu pai só bebia e uma irmã da mãe que ajudava a família praticamente miserável. O marido da irmã arruma dinheiro para a família seguir para o Canadá. A mãe morre na viagem. O pai só fica nas ruas, não paga a hospedagem, as crianças passam fome, até que o  pai decide que Grace, com 12 anos, deve começar a trabalhar. E ela vai a uma casa de família junto com outros empregados fazer serviços domésticos. Margaret Atwood mostra muito a miséria humana, a falta de recursos, de solidariedade.

Obra Harvest Grow (1898) de Lucius Richard O´Brien.

Eu me surpreendi com o feminismo da obra. A autora mostra a péssima condição que vivem as mulheres, principalmente as pobres. Três são abandonadas por seus homens que bebiam e torravam todo o dinheiro com a bebida. Ficam à míngua, algumas mães, todos passam fome. É sutil o feminismo, mas muito claro. O quanto as presidiárias são abusadas pelos oficiais do presídio. A baixíssima perspectiva de uma vida melhor. As mulheres não podiam ficar sozinhas, sofriam todo o tipo de afronta. Triste a história da amiga de Grace que engravida, aborta e morre. Tudo parece que a culpa é do filho do patrão que prometeu casamento para poder seduzir a moça e a abandonou a própria sorte depois. Também mostra o quanto culpavam Grace mesmo nunca tendo prova contra ela. Muitos relatos diziam que Grace que tinha feito a cabeça do Mc Dermott, que ela que era má, como se um homem, muito mais velho que ela que só tinha 16 anos, só mataria por influência e que a maldade fosse só dela. Só há certeza que ela foi cúmplice, todo o resto é especulação, porque ninguém estava na casa na hora dos assassinatos e a ciência pouco desvendava dos casos na época.
Obra Church at Testin (1932) de A.J. Casson

Muitos irlandeses imigraram para o Canadá. Margaret Atwood fez uma grande pesquisa sobre Grace Marks em jornais, livros sobre ela, coloca trechos no início de sua história, mas escreveu ficção. No final a autora comenta que acredita que todas as obras sobre a assassina se aproximam mais de ficção do que da realidade. Relata que uma inclusive era muito sensacionalista. A autora coloca em geral dois relatos, do médico que vai ouvir a história de Grace para tentar entender a mente dela ea  da Grace. Nunca ficamos sabendo se Grace só contava histórias que queriam ouvir, mostrando sempre sua inocência, ou se realmente era inocente. Ela é submetida a hipnose por um homem, acompanhada por todos, e uma outra pessoa fala por ela. O médico acredita ser outra personalidade, o padre, o espírito de uma morta. O padre e as pessoas do entorno da Grace acreditam então que ela é inocente. Independente de acharem que era o espírito ou outra personalidade, qual a certeza que eles tinham que esses seres não voltariam e ela não voltaria a matar? Mas eles começam em uma luta para que ela seja solta e finalmente conseguem. Grace Marks realmente foi libertada muitos anos depois, levada pelo Governador e sua filha. Grace trabalhava na casa do Governador do presídio. Ela foi levada aos Estados Unidos, onde casou e viveu uma vida pacata com outro nome. 

Obra Fire´s Ranger´s Cabin (1919) de Frank Johnston.

O livro é extenso, complexo, inteligente, com um texto maravilhoso. Cheio de nuances sobre a mente humana. Fala muito de miséria, fome, maldade, dificuldade. É simplesmente fantástico! Fiquei fã dessa autora.

Geocrusoe fez uma postagem bem completa sobre a autora.

Beijos,
Pedrita

16 comentários:

  1. Naqueles tempos sombrios as mulheres eram inculpadas por tudo e por nada. Por isso mesmo elas tinham que se tornar mais sagazes. Todavia, pela conjuntura geral, eu já parto da presunção de que a maioria dos crimes atribuídos às mulheres eram armação, rsrs. O livro deve ser bom!

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    1. marly, realmente, se até hj a culpa é da mulher, imagina naquela época.

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  2. Oláááááá Pedrita
    Parabéns pela resenha maravilhosa!
    Não conhecia a autora nem o livro.
    Que capa linda!
    E as imagens que vc escolheu são espetaculares.
    Deve ser muito interessante, instigante e envolvente. Uma narrativa inteligente, perspicaz e sutil.
    Vai para a lista dos desejados, excelente indicação, amei <3
    Ótima quinta pra ti
    Bjs Luli
    Café com Leitura na Rede

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  3. Como é possível nunca ter ouvido falar de Atwood!!!! Uma das duas escritoras canadianas mais conhecidas do planeta, a outra é Alice Munro.
    Já li várias obras dela, em 2008 publiquei um post quando ganhou o prémio Príncipe das Astúrias onde mencionadava as 3 obras dela mais fortes que lera dela.
    http://geocrusoe.blogspot.pt/2008/06/prmio-prncipe-das-astrias-2008-margaret.html
    Também já li Alias Grace e lembro-me bem da força desta mulher num mundo colonial onde a mulher e o conservadorismo eram muito opressivos.
    Também li Edible Woman, Penelopiad, The Year of the flood, The robber bride e espero ler os seus últimos dois que também são distópicos como o são The Handmaid Tale (agora redescoberto desde a eleição de Trump nos USA) e Oryx and Crake.
    Para conhecer a diversidade de estilos em ficção, além da poesia recomendo "The blind assassin, booker prize de 2000.
    Em Portugal essa autora também está a ter presentemente uma intensa divulgação, mas claro que a conheço há muito do Canada.

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    1. carlos, depois eu vi q eu comentei a sua postagem lá atrás. até mencionei no post, no finalzinho. estou tentando descobrir se o brasil falava dessa autora. pq realmente mal sabia de sua existência. só se passou batido. e ganhei outras obras dela. com umas edições bem bonitas tb. mais pra frente vou ler outro.

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  4. Leitura não é o meu poto forte Pedrita mas livros com imagens acredito que chama mais a atenção.

    rsrsrs

    Beijinhosss ;*
    Blog Resenhas da Pâm

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  5. Não conheço nada da escritora.
    A capa do livro é muito bonita.
    Tenho acompanhado(ate´demais) vídeos sobre livros e com resenhas as vezes até muito longas, mas não lembro de ter visto algum com essa escritora.

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    1. liliane, eu conhecia muito pouco tb, mas é fantástica. acho que vai gostar.

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  6. Hello, Pedrita!
    Adorei a resenha,um livro super interessante, obrigada por mais essa partilha!

    Beijinhos ♥

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  7. Olá, tudo bem? Eu assisti Constelações no Tucarena. É uma CHATICE! E o caco Ciocler nem foi.. Não recomendo...Assistirei Joaquim.. Espero ter mais sorte. Bjs, Fabio www.tvfabio.zip.net

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Bons comentários!