quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Pieces of Woman

Assisti Pieces of a Woman (2020) de Kornél Mundruczó na Netflix. Tem tempo que quero ver esse filme, mas estava sem coragem. Assim que começou veio o aviso que é um filme forte. É importante, debate muitas questões, mas é de cortar o coração. Vanessa Kirby está simplesmente maravilhosa! O filme é baseado no texto de Kata Wéber. O diretor e a autora são húngaros.




O filme começa com o parto. São cenas sem cortes, acompanhando todo esse processo. Que filmagem. O casal é muito carinhoso, muito unido. Eles resolveram ter a filha em casa com uma parteira que está em outro parto e envia outra parteira. Mas eles continuam tranquilos. Eu conhecia documentários de parteiras, aquelas do passado muito comuns no Brasil, mas essa parteira é muito diferente. É bem tecnológica. Logo que ela chega ela mede com um aparelho o coração do bebê, está tudo correndo muito bem. Ela verifica a dilatação, que as parteiras comuns também fazem, e está tudo bem também. Está perto do nascimento, eles vão ao quarto. E lá tudo começa a desandar. Os batimentos da criança estão fracos, ela pede pro pai da criança chamar uma ambulância para ir ao hospital, mas continua pedindo ajuda da mãe para tentar ter a criança que está quase saindo e é o que acontece. A criança chora, muita emoção, até que a criança tem um problema e o filme segue para o futuro.

É dilacerante como essa mãe começa a sofrer inúmeras violências. Sua mãe, pela maravilhosa Ellen Burstyn, cisma que a filha só vai superar o trauma se elas processarem a parteira de Molly Parker. A filha não quer, mas a mãe vai articulando todos em volta da filha para pressioná-la. E pior, as pessoas aceitam a incumbência de pressionar uma mãe que acabou de parir e teve a filha morta em seguida. Ela ainda está com leite, sangramento, com o corpo ainda sem voltar ao normal, sem o bebê nos braços e ainda tendo que lidar com essas violências. Ela decidiu lidar em silêncio com sua dor, meio que fugindo de tudo e não é respeitada em sua escolha. Em um determinado momento do filme, mãe e filha tem um embate, e há um monólogo belíssimo da avó contando sua história e apesar de ser violento o que ela está fazendo com a filha, conseguimos entender um pouco a necessidade da avó de processar a parteira. E eu não achei que a parteira errou. Acho muito corajoso mulheres que querem ter seus filhos em casa, porque se algo não dá certo, tempo é fundamental e eu morreria de medo de tudo desandar. Chamar ambulância, ir até o hospital pode ser inviável. E infelizmente acontecem tragédias em gestações. É pouco, mas às vezes dá errado e talvez mesmo em um hospital, perto de uma sala de parto, UTI, o desfecho seria o mesmo.
O que não dá pra entender é o marido de Shia LaBeouf. Ele compra o desejo da sogra no processo não porque está com raiva da parteira, mas sim porque percebe que vai poder ganhar muito dinheiro ganhando a causa. Pode ser que o casal tenha vivido muito bem se a filha nascesse bem, que ele fosse um ótimo pai e eles viveriam muito felizes, mas a questão do pai é mau caráter, e aí não há argumentação. Ele parece ser um eterno fracassado, tinha um sub emprego. E a vida melhor que eles tinham era pelo trabalho dela e pelo dinheiro da família dela. Mas como disse, com tudo estabilizado, nascimento da filha, pode ser que eles tivessem continuado muito felizes. Li uma crítica onde a autora dizia que tragédias separam casais. Depende. Já vi as duas opções. Pode unir mais ou separar. Há casais que ficam muito mais unidos após grandes tristezas, o que não aconteceu com eles dois. Mas sinceramente, eu acho que foi um livramento ela, porque fico imaginando a falta de valores que ensinaria a filha. Achei muito bonito o final. A mãe consegue renascer e reconstruir a sua vida. A cena na macieira é emocionante. Fiquei feliz por ela. Nem toda pessoa que passa por uma tragédia como essa consegue seguir em frente plenamente, mesmo que tenha muita ajuda de profissionais.

Beijos,
Pedrita

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Jung-E

Assisti Jung-E (2023) de Yeon Sang-ho na Netflix. Não tinha ideia desse filme, gosto muito de ficção científica, resolvi ver. Gostei muito! Tem me agradado bastante as artes falando de IA. Precisamos urgente debater o assunto. Empregadores estão animadíssimos com IA para reduzir custos e desempregar, precisamos pensar muito sobre o tema. Esse filme é muito interessante por essa abordagem. É um pouco longo, arrastado, com lutas demais, mas o tema central aprofunda bem, gostei bastante. E fala muito sobre ética.

Descobrimos que um grupo tenta aperfeiçoar uma profissional de IA para a guerra. São muitas abordagens interessantes. A filha que trabalha com os protótipos baseados no cérebro da mãe. É muito sofrimento ela ver o tempo todo a mãe que é um IA sendo torturada de todas as formas para superar obstáculos.

 
Tudo isso acontece depois que o planeta foi inundado e há pessoas em outros planetas e alguns ainda na terra. Há guerras entre esses mundos, por isso a criação de um exército de IA. Mas são tantas questões. Sempre que a filha se incomoda com os excessos, lembram que a mãe assinou, a mãe "aceitou". É tão complexa essa questão, tantas empresas usam isso pra explorar seus funcionários. E nesse caso é mais abominável ainda. A filha estava muito doente, então a mãe assina pra filha ter o tratamento. Depois quando a filha não gosta dos abusos, falam o mesmo pra ela, que ela assinou. São muitas questões, gostei muito. A mãe é interpretada brilhantemente por Kim Hyun-joo. Está muito bem também Ryu Kyung-soo.

Fiquei arrasada ao final que veio que era em memória da protagonista Kang Soo-youn, que morreu subitamente. Muito triste!
Beijos,
Pedrita

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Projeto Wislawa

Assisti a peça Projeto Wislawa de Cesar Ribeiro no Teatro Paulo Eiró. Queria muito ver esse espetáculo e fiquei muito impactada com a montagem.


Eu queria ver porque adoro o trabalho de Clara Carvalho e Vera Zimmermann, elas estão majestosas, que atrizes. Wislawa Szymborska (1923–2012) foi uma escritora polonesa, ganhadora de Nobel de Literatura em 1996. Os textos da peça falam de morte, há uma personagem que é assassinada no espetáculo, mas os textos falam da morte da arte, da poesia e da repressão que a autora viveu no período da Segunda Guerra Mundial. A forma como contaram essa história é absolutamente genial. A personagem de Clara Carvalho diz que não matou. Ela só usou a faca no corpo que estava ali. É tudo simbólico, complexo!

A cenografia de J.C. Serroni é brilhante. Amei as rosas que descem do teto. Tudo é milimétrico. Gostei da equipe técnica estar no palco, dos objetos. Os figurinos de Tellumi Hellen que parecem mudar tão pouco e mudam tanto. E o visagismo de Louise Hélene é ótimo.



Impactante a iluminação de Rodrigo Palmieri. O diretor ainda assina a dramaturgia e a trilha sonora excelente. Consegui descobrir algumas músicas, procurando outras.
Trecho do poema A Vida na Hora de Wislawa Szymborska

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Projeto Wislawa fica em cartaz até 1º de março. Os ingressos custam somente R$ 20,00.
 

Beijos,
Pedrita

sábado, 7 de fevereiro de 2026

O Agente Secreto

Assisti no cinema O Agente Secreto (2025) de Kleber Mendonça Filho. Finalmente consegui ver! Achei que nem ia conseguir ver antes do Oscar. Quis ver antes do Globo de Ouro, mas por sorte tive muito trabalho e foi impraticável. O Agente Secreto ganhou Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Ator de Drama para Wagner Moura que está inacreditável. É um dos grandes atores de sua geração, mas impressionou mais ainda! Sem dúvida uma de suas melhores atuações.
 

Eu assisti na Semana do Cinema, no Cinemark, por R$ 10,00. Eu adoro esses eventos, é muito cinéfilo animado, uma festa mesmo. E espero que aumente muito mais o público do filme que já está em 2 milhões de espectadores.

O Agente Secreto é impecável! Agora entendi porque quem vê costuma ficar fã. Eu fiquei com vontade de ver e rever inúmeras vezes. São muitos momentos icônicos. É um drama triste e doloroso, intercalado de um humor ácido muito peculiar. A começar pela cena inicial que dá todo o tom do filme. Wagner Moura chega de Fusca amarelo em um posto de gasolina. Há um homem morto fedendo coberto de papelão. O frentista diz que está lá há dias, que chamou a polícia e nada. A polícia vem, mas não é pelo morto, é para ver se acham algo errado no carro pra tirar algum dinheiro do motorista. Kleber Mendonça tem falado muito em entrevistas sobre esse período. O filme é ambientado no Brasil de 1977. Que não há vilões e sim o momento que proporciona monstros. Não compactuo com essa visão, mas é interessantíssimo ver um filme com esse olhar. Muito reflexivo.
Wagner Moura é Marcelo, na verdade Armando, e está fugindo. É um subversivo? Não!!! Ele é um pesquisador altamente qualificado, que trabalha em uma universidade do nordeste, com uma equipe mista, brasileiros e estrangeiros, em um projeto científico fundamental para o país.

Um mega empresário do sul pelo ótimo Luciano Chirolli fica interessado nos projetos. Ele patenteia alguns escondido, desmonta a equipe. Armando fica revoltado, eles se rivalizam e Armando passa a ser jurado de morte. O filme começa com ele no fusca amarelo, seguindo em fuga pra Recife e se esconde em uma casa de refugiados liderado pela maravilhosa Tânia Mara, que atriz e que personagem. 

Armando é de Recife, sua família é de lá. Sua esposa morreu e ele tem um filho que fica com o avô de Carlos Francisco e sua companheira. A incrível Alice Carvalho faz a esposa. Ele diz ao filho que ela morreu de pneumonia, mas pode não ser. Gosto muito das lacunas do filme até porque era um período muito, mas muito perigoso então não se revelava a verdade por segurança.


O Agente Secreto concorre a uma categoria nova do Oscar, Cast e o elenco do filme é inacreditável. Outro concorrente é Pecadores, que tem a mesma genialidade de elenco, só que com atores americanos, pode ser que esse leve. Mas é um trunfo incrível a mistura de atores em O Agente Secreto. Só nos moradores da casa já se percebe essa mistura. Tem a genial Hermilla Guedes que acaba tendo um romance com Marcelo, João Vitor Silva Isabel Zuáá. que amo. Ela e o marido são personagens de Angola. Zuáá, é a primeira atriz negra portuguesa a concorrer ao Oscar.
A reconstituição de época é milimétrica. É fusca, opala, brasília, carros muito coloridos que sumiram das ruas, móveis. Orelhões. Fiquei chateada que estão retirando os últimos orelhões das ruas. Brasil é assim! Em vez de aguardar o Oscar já que o orelhão é um símbolo do filme, começam a retirar agora. História pra que não é? Quem mora em Recife deve se maravilhar com o filme, com vários pontos históricos da cidade da época. Os policiais são também geniais. A começar no Carnaval. Misturada a trama dramática, tem uma perna engolida por tubarão. O policial se veste rápido para ir ao IML mas ainda tem restos de batom na boca e purpurinas. Robério Diógenes está entre os melhores do filme, que ator, que personagem. Udo Kier faz um judeu, que o policial acha que é um ex-combatente alemão. Alguns outros do elenco são Thomás Aquino, Marcelo Valle, Rubens Santos, Laura Lufésy, Buda Lira, Maria Fernanda Cândido e Ítalo Martins.
Genialidade também no elenco de matadores. Roney Villela é o que negocia, é muito dinheiro. E sim, com o dinheirão que ganha ele usa para custear a viagem. Pagar um profissional do ótimo Kaony Venâncio. E ele vai com seu sobrinho de Gabriel Leone que ajuda na empreitada. A cena de perseguição dos dois matadores é incrível. Acontece nas ruas, mas tem que ser nas ruas de 1977, imagino a dificuldade de ambientação e edição.

Há muitas cenas incríveis como essa cena na janela e esse elenco Geane Albuquerque e Suzy Lopes. A edição do filme também é incrível. Toda entrecortada com o passado, presente e futuro. De repente aparece um celular nos dias de hoje e duas jovens são pesquisadoras e ouvem as vídeos cassetes de 1977. Muito irônico que o filho de Armando não quer saber do passado. É daqueles que não tem interesse na história e faz o apagamento histórico tão comum no Brasil. Outro detalhe desse grupo é a repressão mesmo nos dias de hoje que manda as duas pararem com as investigações e abafarem o caso. Achei muito inteligente a morte de Armando. Só sabermos pelo foto e pela notícia do jornal. Deu saudade da importância do jornal impresso na sociedade, que contava, ou pelo menos tentava, contar tudo o que acontecia. 
Que venha o Oscar!!!



Beijos,
Pedrita

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Sete Relógios

Assisti a série Sete Relógios de Agatha Christie (2026) de Chris Chibnall na Netflix. O 007 já tinha assistido. São só 3 episódios e fica a ideia de uma continuação, o que não acontecia com os livros de Agatha Christie. É uma série impecável, cenários, figurinos, locações, direção de arte, ótimo elenco, mas morna, muito morna. Todos os ingredientes para ser o maior evento do século e com um anticlímax inacreditável. Dá pra ver? Claro, até a pior adaptação de uma obra de Agatha Christie sempre é ótima. Essa só é morna. Eu procurei nas minhas anotações e acho que esse eu não li, difícil saber. Agatha Christie é a autora da minha infância e que me proporcionou o gosto pela leitura, então a chance de ter lido e não anotado é grande. 

Há uma belíssima festa em uma mansão deslumbrante. A protagonista é a doce Mia McKenna-Bruce. Ela está apaixonada pelo jovem de Corey Mylchreest. Ele dorme no quarto dela e ela em outro. Ele dá a entender que irá pedi-la em casamento em um outro encontro. Os amigos resolvem se divertir com ele que costuma perder  hora e enchem o quarto dele de despertadores pra tocar de manhã tudo junto. Escondem todos os despertadores. Ele aparece morto, dá muita pena da jovem, mas como é morna a série ela parece que nem liga muito. Os 7 relógios amanhecem juntos.
Ela descobre que um detetive da Scotland Yard também está investigando. Ele é Martin Freeman.

Começam então aqueles encontros de todo mundo em uma nova casa e novamente é outra bela mansão. Tem várias externas deslumbrantes. E termina em um trem, outra característica deliciosa de Agatha Christie. Alguns outros do elenco são Edward Bluemel, Alex Macqueen, Nyasha Atendi, Nabhaan Rizwan, Dorothy Atkinson, Hughie O´Donnell e Ella Ray Smith.

Helena Bonham Carter é a mãe e o pai Iain Gleen

Beijos,
Pedrita