segunda-feira, 23 de março de 2026

Luta de Classes

Assisti Luta de Classes (2025) de Spike Lee na AppleTV+. Eu andava ignorando esse filme até que vi que é desse ótimo diretor, talvez devesse continuar ignorando. É livremente inspirado no filme Céu e Inferno de Akira Kurosawa que acho que não vi.

Agora a empresa é uma gravadora. Denzel Washington é um arrogante empresário que ficou rico descobrindo talentos da música, principalmente negros. Com a expansão do seu negócio e a mudança no segmento está precisando se reorganizar.

Até que seu filho é sequestrado e ele tem que levantar milhões para conseguir libertá-lo. Ele mora em uma belíssima cobertura em São Francisco, seu apartamento fica lotado de policiais ajudando nas negociações. Os policiais infernizam o tio Paul, braço direito do empresário, ex-presidiário, o tem todo insinuam que sequestros costumam acontecer por pessoas próximas, ele é interrogado como criminoso.

O filho é localizado e descobrem que erraram e sequestraram o filho do braço direito do empresário, o tio Paul de Jeffrey Wright. Agora o empresário não quer mais levantar o dinheiro do resgate. E aí os policiais não se importam mais já que o filho não é mais de um rico empresário. Ninguém se solidariza com a agonia desse pai, ninguém se desculpa por ter desconfiado dele. O filho do empresário volta e ele não é diferente do pai. O sequestrado era o melhor amigo dele, conviveram juntos, são inseparáveis, mas o filho está preocupado com a negativa do pai em pagar o resgate porque está perdendo seguidores nas redes sociais, está pegando mal pra ele. Em momento algum ele implora pela vida do amigo e sim pelo restabelecimento dos seguidores e de seu faturamento. Até a metade do filme tudo é incrível, essas conversas, os silêncios, a hipocrisia.
Na outra metade o filme desanda completamente. O empresário aceita levantar o dinheiro só pra ganhar tempo. E os dois pais, empresário e braço direito, passam a perseguir o sequestrador. 

O final também é esquisito. O empresário resolve abrir mão da grande gravadora e começar como foi no início, focando na música e buscando novos talentos. Ter uma pequena gravadora. Agora é fácil, ele já é milionário, deve ter levado uma fortuna com a venda da sua parte na gravadora, dá pra brincar de empresário idealista. Uma jovem vai cantar uma bela música e ele fala que ela vai ter que lidar com a fama, com muito dinheiro, depois perder tudo, como se todo músico que se investe vai ficar milionário quando é uma minoria que tem essa sorte. A grande maioria vai fazer uma carreira mediana ou vai desistir no meio do caminho.
Beijos,
Pedrita

sexta-feira, 20 de março de 2026

Globo Repórter

Assisti ao Globo Repórter com quatro cidades que foram cenários de filmes brasileiros na GloboPlay. Claro que o foco era O Agente Secreto, antes da cerimônia do Oscar. Mostraram Recife. Fiquei pasma que o Cinema São Luis ainda é ativo na cidade. O operador da máquina disse que deu orientações a Carlos Francisco. E que com o filme o cinema voltou a lotar. Cecília Malan que é correspondente em Londres que entrevistou Wagner Moura e Kleber Mendonça. Mostrou ainda trechos de Cinema Aspirinas e Urubus que amo.

Depois o programa seguiu para o Rio de Janeiro, para falar do filme mais famoso de Wagner Moura, Tropa de Elite, o filme mais visto nos cinemas no Brasil até hoje.

A próxima cidade foi Salvador. Lembraram do icônico Dona Flor e Seus Dois Maridos que amo, também um dos filmes mais visto no Brasil. Passaram aquela cena maravilhosa no Pelourinho do José Wilker nu com Sônia Braga ao meio. Falaram do belíssimo O Pagador de Promessas, vencedor no Festival de Cannes, que é fantástico e foi realizado nas escadarias da Penha. Fizeram matérias com o elenco de Ó Pai Ó também com Wagner Moura no elenco. E finalizaram com a Cidade Baixa, eu amo esse filme e ele está disponível na Netflix. É com Wagner Moura e Lázaro Ramos, os dois são muito amigos e se apaixonaram pela personagem da Alice Braga.
A última cidade foi São Paulo e entrevistaram Fernando Meirelles que dirigiu Ensaio sobre a Cegueira que eu amo também. Ele falou da dificuldade que é gravar em uma cidade como São Paulo, sempre tão movimentada. Falou que fechou o Minhocão para fazer algumas cenas.

Foi a primeira vez que vi o Globo Repórter agora com esses apresentadores. Sandra Annenberg já está há um tempo e agora faz dupla com William Bonner. O cenário agora é um sofá e para o cinema estavam com pipocas. Eles apresentam e fazem alguns comentários.



Beijos,
Pedrita

quinta-feira, 19 de março de 2026

Sweetness in the Belly

Assisti Sweetness in the Belly (2019) de Zeresenay Mehari na Film&Arts. Esse filme é baseado no livro de Camilla Gibbs. O diretor é etiópe.

Eu procurava filmes com Wunmi Mosaku. Descobri que já vi vários trabalhos com ela. Gosto muito do trabalho dela. 

A história é muito triste. A personagem da Dakotta Fanning aparece criança, com 7 anos. Ela e seus pais estão viajando no Marrocos, os pais parecem bem alternativos. Vão visitar um guru, enquanto a filha brinca com as crianças, eles vão embora, largando ela lá. Ela cresce então nesse ambiente muçulmano, torna-se muçulmano e faz toda a sua educação nesse ambiente ultra religioso. 

Agora ela vive de favor na casa de uma mulher, faz serviços domésticos e está na Etiópia. O filme conta esse período que o imperador é deposto por revoltosos, mas o exército que ajudou o povo toma o poder e passa a executar os revoltosos que os colocaram no poder. O médico que ela se apaixona se junta aos revolucionários e eles se perdem. Ele é Yahya Abdul-Mateen. É quando uma horda de refugiados começa a deixar o país e a protagonista também. Ela descobre na imigração que tem passaporte inglês, é inglesa, então tudo fica mais fácil pra ela. Em Londres inclusive o governo dá um apartamento pra ela.
É quando a protagonista reencontra a personagem da Wunmi. Elas tinham se visto na fila da imigração. Ela acabou de ter um bebê, tem um filho e procurava uma amiga pra ver se poderia sair do abrigo. A protagonista oferece que morem juntas. Forma-se uma linda amizade. A amiga era agregadora, tinha inúmeras amizades, o apartamento vive sempre alegre e feliz. Ela monta um escritório para localizar parentes da Etiópia. O filme fala muito de não pertencimento, aquela sensação de parecer não fazer parte de lugar algum.

Beijos,
Pedrita

segunda-feira, 16 de março de 2026

Oscar 2026

Assisti a cerimônia do Oscar 2026. Primeiro no E! e GloboNews para acompanhar os looks que estavam maravilhosos, as entrevistas e depois na TNT que fez exibição simultânea com a HBOMax. Sim, estamos todos meio de luto hoje, o Brasil não trouxe nenhum Oscar e isso foi muito injusto. Mas é fato que O Agente Secreto concorreu em um ano com filmes inacreditáveis de bona, tanto quanto o nosso. Era uma concorrência absurda. Não vi o que ganhou Melhor Filme Estrangeiro, Valor Sentimental e sei que vou achar o nosso melhor, mas isso não significa que venha a achar o filme ruim, mas deixa eu ver depois eu falo. Agora com ranço vou demorar pra ver. Amei que os brasileiros usaram figurinistas e joalheiros brasileiros no figurino do Oscar. Alice Carvalho usou uma roupa Normando. As joias do Wagner Moura e esposa eram de André Lasmar, designer recifense.

Até a atriz portuguesa Isabel Zuáá escolheu usar um vestido da estilista Penha Maia.

Saindo dessa decepção, fiquei muito feliz com quase todos os premiados, muito merecedores. E os discursos foram muito fortes e emocionantes. Michael B. Jordan lembrou os negros que venceram o Oscar antes dele. Ele está maravilhoso em Pecadores em seus dois personagens.

O Oscar foi bem politizado. Tem uns anos que o Oscar vem permitindo mais manifestações e diversas. Vários pediram paz e não guerra, sem ser específicos, eu sou pela paz também. Javier Bardem foi mais específico. Pediu fim das guerras e Palestina Livre. Já teve ator banido do Oscar por manifestações, vamos aguardar.

Fiquei muito feliz que ganhou Uma Batalha Após a Outra. É um filme muito político e necessário. Fala muito de perseguição americana aos imigrantes, violação dos direitos humanos com os imigrantes, higienização e da hegemonia branca.

Autumn Durald ganhou Melhor Fotografia por Pecadores. Foi a primeira mulher negra a ganhar nessa categoria. No discurso ela lembrou a importância desse prêmio para as mulheres. Sim, eu queria o brasileiro Adolpho Veloso por Train Dreams. A fotografia do filme é belíssima e é o melhor do filme já que é muito convencional em roteiro. Mas fiquei muito feliz pela Autumn, a fotografia de Pecadores é belíssima! Merecidíssimo!

Foi emocionante o discurso do vencedor de curta documental, Quartos Vazios. O curta fala sobre os quartos das crianças que foram assassinadas a tiro em escolas. Que muitas famílias mantém o quarto vazio. No discurso trouxeram uma mãe para falar da morte de seu filho. Imagino que seja nos Estados Unidos, ela disse que o maior número de mortes de crianças nos Estados Unidos é por balas em escolas.

Esse ano teve uma categoria nova, Melhor Casting e O Agente Secreto também concorria. Cada ator dos filmes indicados falou do que seleciona elenco. Ganhou Uma Batalha Após a Outra que tem um elenco tão incrível e diverso como o Agente Secreto. Wagner Moura falou o que selecionou casting no filme.

Eu não costumo gostar dos apresentadores do Oscar, as piadas são na maioria das vezes de mal gosto. Gostei de alguns quadros do Conan O´Brie. Fizeram vídeos e criticaram o excesso de comerciais do youtube. A transformação de filmes em vídeos curtos da internet. A solicitação de repetir falas já que as pessoas assistem vendo o celular. Fizeram uma representação de Casablanca com repetições, ficou bem engraçado e crítico. E amei que ao final refizeram com ele a cena icônica do Sean Penn em Uma Batalha Após a Outra. Inclusive Sean Penn ganhou Melhor Ator Coadjuvante que não só não foi como não pediu pra ninguém receber no lugar dele. Agora que achei uma matéria que diz que ele não foi em protesto a guerra contra a Ucrânia. Foi mesmo uma noite muito política. Não há como dissociar a arte da política.

Só teve uma categoria que achei abominável, a da canção com a música esgoelada da K-Pop. É a cara do Oscar, cafona, previsível, que queima cordas vocais. 

Foi infinitamente melhor a canção dos Pecadores e a música é incrível, com uma fusão de ritmos, estilos. A trilha toda é incrível. E protagonista Miles Catons canta muito. E ainda deram um jeito de alfinetar Melamé colocando uma bailarina clássica no meio da apresentação. E cabe, porque tem inúmeros gêneros, é realmente pra mostrar a consagração e fusão de todos os estilos.

Esse ano a cobertura foi incrível. A Globo já tinha conseguido incluir apresentadores no tapete vermelho, Raquel Krähenbühl e Felippe Coaglio. Não é fácil, é uma disputa ferrenha. E com isso foi a GloboNews que conseguiu as melhores entrevistas com os brasileiros. O apresentador contou que só podiam fazer quatro perguntas, mas claro que todos se animavam e falavam mais. Os próprios do Agente Secreto se empolgavam pra dividir conosco tudo o que sentiam. Confesso que eu desconfiei que não íamos levar nenhum Oscar pela ênfase que diziam que o que valia era já estar ali, naquela efervescência do cinema, trocar informações.
Lázaro Ramos foi participar da cerimônia. E foi uma delícia acompanhar os bastidores. A cobertura que ele fez foi excelente.

Beijos,
Pedrita

domingo, 15 de março de 2026

A Natureza das Coisas Invisíveis

Assisti A Natureza das Coisas Invisíveis (2025) de Rafaela Camelo na Netflix. Não conhecia esse filme, mas comecei a ver em listas e elogios entre os melhores filmes do ano passado. E é lindo mesmo! Que poesia! Que filme lindo!

E vem colecionando prêmios Melhor Filme – Júri Infantil no 43º Festival Internacional de Cinema do Uruguai; Menção Especial do Júri na Competição Ibero-Americana do 51º Seattle International Film Festival (SIFF); e o prêmio Outstanding First Feature no Frameline49, em São Francisco. Coelho de Ouro de Melhor Longa-Metragem Brasileiro no 33ª edição do Festival Mix Brasil e Coelho de Prata de Melhor Interpretação para Laura Brandão e Serena. 53º Festival de Cinema de Gramado, Prêmio Especial do Júri, Melhor Atriz Coadjuvante (Aline Marta Maia) e Melhor Trilha Sonora (Alekos Vuskovic). Melhor Roteiro e o Prêmio Sundance TV de Melhor Ópera Prima no 9º Santander International Film Festival. Prêmio do Júri Jovem de Melhor Longa-Metragem no Everybody’s Perfect Geneva 2025, o Best Achievement Award de Direção de Elenco no 19º Bravo Film Festival, além de dois reconhecimentos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: o Prêmio da Crítica | Melhor Filme Brasileiro e o Prisma Queer | Melhor Filme Brasileiro. circulação internacional.

O filme aborda tantas questões de modo sutil e sensível. Um aspecto é que fala muito de mães solo. A dificuldade de cuidar da filha sozinha. A protagonista é enfermeira, tem aqueles turnos pesados, então a filha fica no hospital com ela. A menina já está adaptada a dinâmica, conhece muitos pacientes, é afetiva. Tem uma beliche onde ela dorme. O filme tem vários momentos mágicos, encantatórios, fantásticos.

Outra menina com histórico parecido acaba se juntado a ela e sim, no hospital. Quem cuidava dela era a bisavó da incrível Aline Marta Maia, que está doente, e a mãe não tem com quem deixar a menina, que também passa a ficar no hospital. A amizade das duas emociona. A que já está habituada naquele ambiente ama as caixas dos que foram embora, os objetos. A outra acha que usar coisas de quem morreu é maldição. Com uma vida tão precária, não querer nada do passado, chega a ser burrice. A amizade das duas se fortalece. É lindo de ver. E gostei muito de ver crianças sendo crianças. As duas são Laura Brandão e Sofia.
As mães também se aproximam. Elas são as ótimas Larissa Mauro e Camila Márdila. Elas precisam dar conta de tudo sozinhas. A avó está com demência e pede o tempo todo para ir para o sítio. A neta acha que será complicado, mas a enfermeira sugere ir junto. Tudo é delicado. A mãe diz que não tem como pagar a enfermeira. E ela diz que quer que a filha tenha o resto das férias em algum lugar que não seja o hospital. Combinação feita, o quinteto segue para o sítio.

E a vida se ilumina. Me emocionei inúmeras vezes. Livres, com galinhas, árvores, frutas no pé, a vida delas ganha nova perspectiva. E outro fator me emocionou demais. Essas mães nunca mais ficam sozinhas. O afeto e a solidariedade da comunidade emociona. Principalmente de mulheres. Que vão jogar conversa fora, ajudar nos afazeres. Visitar a amiga acamada. Não só vão, ficam um pouco dando acolhimento, afeto, ajudando nos afazeres. Vão e ficam, sempre tem gente na casa. Ajudando na cozinha, conversando, fazendo companhia. É um séquito de amigas, companheiras, mulheres solidárias. A solidão da vida da cidade grande acaba. Elas estão amparadas. E as rezadeiras, as tradições de remédios de plantas, enfim, tudo é lindo. 
Uma delas sugere que precisa fazer a encomenda da morte de alguém que já sei foi. Ao final, nos créditos, diz que essas vozes das encomendadeiras da Alma da Santana dos Brejos da Bahia.

Só nos créditos que entendi uma das cenas. Há muita sutileza, tudo é milimétrico. Que filme! Que poesia!

Pedrita