Assisti A Garota Canhota (2025) de Shih-Ching Tsou na Netflix. Falavam muito desse filme que quis ver. É sobre uma família disfuncional, todos são pavorosos, inclusive os avós e agregados. A cultura do país é destruidora, machista e retrógada. O roteiro é de Sean Baker.
O núcleo principal é só de mulheres como aqui no Brasil. O pai da adolescente se mandou. Elas se mudaram para um apartamento pequeno, a mãe monta uma barraca de comida e é bem elogiada pelo seu tempero. É uma loja em uma feira repleta de barraquinhas de tudo o que puder imaginar. A adolescente trabalha bem longe em um estabelecimento duvidoso e tem um relacionamento bem tóxico com o dono. Ela está rebelde até demais. A garota canhota é a pequenininha. Ela adora as barracas coloridas do trabalho da mãe. Vai à escola. Ajuda na barraca e vive com sono porque a loja vai até tarde sempre. A menina está sempre dormindo pelas mesas. A menina é invisível, as outras duas mal a veem, a pequena vive sozinha em tudo quanto é lugar, some e ninguém percebe. Nina Ye é fofa demais. A irmã adolescente é Shia-Yun Ma e a mãe Janel Tsai.
A mãe tem baixa estima. O pai que desapareceu está muito doente e ela gasta o que tem e o que não tem no enterro dele sem contar pra ninguém e passa a ter risco de perder sua barraca e seu sustento. Os pais dela e irmãos tem uma vida confortável, podiam ajudar, mas é uma família que só saber apontar o dedo. Sim, ela jamais deveria ter pago o enterro do irresponsável do pai da adolescente, mas já foi, já fez e pode não ter como sustentar as duas filhas. Inacreditável como a família é tóxica, só sabe criticar. E isso se reflete no trio de mulheres que não tem diálogo. É uma família que só sabe punir, criticar. Não sabe acolher, amar, ser afetiva. Todos se sentem abandonados.
Assisti Prédio Vazio (2025) de Rodrigo Aragão no Canal Brasil. Eu amo esse diretor e seus filmes de terror e esse é uma verdadeira preciosidade. Sim, é muito, mas muito violento, mas é absolutamente genial! Fiquei estarrecida. E que elenco!
Sim, é um prédio vazio. Começa com uma matéria falando de Guarapari, é Carnaval quando o prédio não fica vazio. Mas como é sinistro o prédio. Eu fiquei curiosíssima para descobrir como tudo foi feito porque é assustador demais. Aragão é mestre em fazer filmes de terror com baixíssimos recursos e orçamentos. Ficava imaginando como tinha feito. No prédio mora um fofo casal de idosos. Começa com os dois na praia e tudo já é assustador. As pessoas alugam os apartamentos no Carnaval. A maravilhosa Rejane Arruda é uma das inquilinas da temporada e está com o namorado pavoroso.
A filha da ótima Lorena Corrêa é sensitiva e tem um pesadelo pavoroso com a mãe. Ela e o namorado de Caio Macedo seguem para Guarapari.
A zeladora do prédio é a inacreditável Gilda Nomacce e seu martelo. que pavor. Eu que sou craque em filme de terror me surpreendi absurdamente ao final. Caí direitinho de tão bem feito que é.
Assisti Pieces of a Woman (2020) de Kornél Mundruczó na Netflix. Tem tempo que quero ver esse filme, mas estava sem coragem. Assim que começou veio o aviso que é um filme forte. É importante, debate muitas questões, mas é de cortar o coração. Vanessa Kirby está simplesmente maravilhosa! O filme é baseado no texto de Kata Wéber. O diretor e a autora são húngaros.
O filme começa com o parto. São cenas sem cortes, acompanhando todo esse processo. Que filmagem. O casal é muito carinhoso, muito unido. Eles resolveram ter a filha em casa com uma parteira que está em outro parto e envia outra parteira. Mas eles continuam tranquilos. Eu conhecia documentários de parteiras, aquelas do passado muito comuns no Brasil, mas essa parteira é muito diferente. É bem tecnológica. Logo que ela chega ela mede com um aparelho o coração do bebê, está tudo correndo muito bem. Ela verifica a dilatação, que as parteiras comuns também fazem, e está tudo bem também. Está perto do nascimento, eles vão ao quarto. E lá tudo começa a desandar. Os batimentos da criança estão fracos, ela pede pro pai da criança chamar uma ambulância para ir ao hospital, mas continua pedindo ajuda da mãe para tentar ter a criança que está quase saindo e é o que acontece. A criança chora, muita emoção, até que a criança tem um problema e o filme segue para o futuro.
É dilacerante como essa mãe começa a sofrer inúmeras violências. Sua mãe, pela maravilhosa Ellen Burstyn, cisma que a filha só vai superar o trauma se elas processarem a parteira de Molly Parker. A filha não quer, mas a mãe vai articulando todos em volta da filha para pressioná-la. E pior, as pessoas aceitam a incumbência de pressionar uma mãe que acabou de parir e teve a filha morta em seguida. Ela ainda está com leite, sangramento, com o corpo ainda sem voltar ao normal, sem o bebê nos braços e ainda tendo que lidar com essas violências. Ela decidiu lidar em silêncio com sua dor, meio que fugindo de tudo e não é respeitada em sua escolha. Em um determinado momento do filme, mãe e filha tem um embate, e há um monólogo belíssimo da avó contando sua história e apesar de ser violento o que ela está fazendo com a filha, conseguimos entender um pouco a necessidade da avó de processar a parteira. E eu não achei que a parteira errou. Acho muito corajoso mulheres que querem ter seus filhos em casa, porque se algo não dá certo, tempo é fundamental e eu morreria de medo de tudo desandar. Chamar ambulância, ir até o hospital pode ser inviável. E infelizmente acontecem tragédias em gestações. É pouco, mas às vezes dá errado e talvez mesmo em um hospital, perto de uma sala de parto, UTI, o desfecho seria o mesmo.
O que não dá pra entender é o marido de Shia LaBeouf. Ele compra o desejo da sogra no processo não porque está com raiva da parteira, mas sim porque percebe que vai poder ganhar muito dinheiro ganhando a causa. Pode ser que o casal tenha vivido muito bem se a filha nascesse bem, que ele fosse um ótimo pai e eles viveriam muito felizes, mas a questão do pai é mau caráter, e aí não há argumentação. Ele parece ser um eterno fracassado, tinha um sub emprego. E a vida melhor que eles tinham era pelo trabalho dela e pelo dinheiro da família dela. Mas como disse, com tudo estabilizado, nascimento da filha, pode ser que eles tivessem continuado muito felizes. Li uma crítica onde a autora dizia que tragédias separam casais. Depende. Já vi as duas opções. Pode unir mais ou separar. Há casais que ficam muito mais unidos após grandes tristezas, o que não aconteceu com eles dois. Mas sinceramente, eu acho que foi um livramento ela, porque fico imaginando a falta de valores que ensinaria a filha. Achei muito bonito o final. A mãe consegue renascer e reconstruir a sua vida. A cena na macieira é emocionante. Fiquei feliz por ela. Nem toda pessoa que passa por uma tragédia como essa consegue seguir em frente plenamente, mesmo que tenha muita ajuda de profissionais.
Assisti Jung-E (2023) de Yeon Sang-ho na Netflix. Não tinha ideia desse filme, gosto muito de ficção científica, resolvi ver. Gostei muito! Tem me agradado bastante as artes falando de IA. Precisamos urgente debater o assunto. Empregadores estão animadíssimos com IA para reduzir custos e desempregar, precisamos pensar muito sobre o tema. Esse filme é muito interessante por essa abordagem. É um pouco longo, arrastado, com lutas demais, mas o tema central aprofunda bem, gostei bastante. E fala muito sobre ética.
Descobrimos que um grupo tenta aperfeiçoar uma profissional de IA para a guerra. São muitas abordagens interessantes. A filha que trabalha com os protótipos baseados no cérebro da mãe. É muito sofrimento ela ver o tempo todo a mãe que é um IA sendo torturada de todas as formas para superar obstáculos.
Tudo isso acontece depois que o planeta foi inundado e há pessoas em outros planetas e alguns ainda na terra. Há guerras entre esses mundos, por isso a criação de um exército de IA. Mas são tantas questões. Sempre que a filha se incomoda com os excessos, lembram que a mãe assinou, a mãe "aceitou". É tão complexa essa questão, tantas empresas usam isso pra explorar seus funcionários. E nesse caso é mais abominável ainda. A filha estava muito doente, então a mãe assina pra filha ter o tratamento. Depois quando a filha não gosta dos abusos, falam o mesmo pra ela, que ela assinou. São muitas questões, gostei muito. A mãe é interpretada brilhantemente por Kim Hyun-joo. Está muito bem também Ryu Kyung-soo.
Fiquei arrasada ao final que veio que era em memória da protagonista Kang Soo-youn, que morreu subitamente. Muito triste!
Assisti a peça Projeto Wislawa de Cesar Ribeiro no Teatro Paulo Eiró. Queria muito ver esse espetáculo e fiquei muito impactada com a montagem.
Eu queria ver porque adoro o trabalho de Clara Carvalho e Vera Zimmermann, elas estão majestosas, que atrizes.Wislawa Szymborska (1923–2012) foi uma escritora polonesa, ganhadora de Nobel de Literatura em 1996. Os textos da peça falam de morte, há uma personagem que é assassinada no espetáculo, mas os textos falam da morte da arte, da poesia e da repressão que a autora viveu no período da Segunda Guerra Mundial. A forma como contaram essa história é absolutamente genial. A personagem de Clara Carvalho diz que não matou. Ela só usou a faca no corpo que estava ali. É tudo simbólico, complexo!
A cenografia de J.C. Serroni é brilhante. Amei as rosas que descem do teto. Tudo é milimétrico. Gostei da equipe técnica estar no palco, dos objetos. Os figurinos de Tellumi Hellen que parecem mudar tão pouco e mudam tanto. E o visagismo de Louise Hélene é ótimo.
Impactante a iluminação de Rodrigo Palmieri. O diretor ainda assina a dramaturgia e a trilha sonora excelente. Consegui descobrir algumas músicas, procurando outras.
Trecho do poema A Vida na Hora de Wislawa Szymborska
Despreparada para a honra de viver, mal posso manter o ritmo que a peça impõe. Improviso embora me repugne a improvisação. Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas. Meu jeito de ser cheira a província. Meus instintos são amadorismo. O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante. As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.
Projeto Wislawa fica em cartaz até 1º de março. Os ingressos custam somente R$ 20,00.