Assisti 27 Noites (2025) de Daniel Hendler na Netflix. Eu tinha gostado demais desse cartaz, resolvi ver. E que grata surpresa!
O filme é inspirado em um momento dramático da vida de Natália Cohen, uma artista plástica, mecenas e escritora argentina. Muito bem de vida ela gostava de dar festas, ter uma vida ativa. As interesseiras das filhas, preocupadas com o patrimônio e não com a mãe, na época com 83 anos, internam a mãe compulsoriamente em uma clínica, um cárcere privado. Onde ela passa a ficar trancada, com autorização de só receber visitas das filhas, que eram muito ausentes. Mas o patrimônio não podia se perder.
Marilu Marini está maravilhosa. Lindíssima, a personagem consegue sair da clínica com a ajuda dos amigos. O estado designa um perito para dar o laudo da idosa. É quando Daniel Hendler aparece. Sim, ele também é o diretor do filme. A idosa está novamente em cárcere privado, mas ao menos em seu luxuoso apartamento. Guardas ficam na porta. Ela diz que tem escutas e ele duvida, afinal pessoas mais velhas costumam ter mais paranoias, teorias da conspiração. Ele não tinha o mesmo conhecimento cultural da protagonista. Ele vê uma mulher alegre, vivaz, brilhante, que queria viver a vida como queria e estava sendo privada de sua liberdade. Eu me incomodo muito com pessoas que querem impedir idosos de terem sua própria autonomia.
É muito bonita a relação que vai se formando entre os dois, que são tão diferentes. O filme é muito delicado e bonito. Ele acaba comentando que o melhor para ela era se entender com as filhas e é o que ela faz. O acordo me enojou bastante já que define o que ela pode ou não fazer e boa parte desse pode ou não pode tem a ver com bens. Não com a felicidade e saúde da mãe. Com isso ela pode voltar a ser livre. Natália Cohen continuou ativa até os 104 anos. Fiquei feliz que as filhas demoraram muito tempo para por a mão nos pertences da mãe.
Assisti a série A Escada (2022) de Antonio Campos na HBOMax. Essa série vai entrar na Netflix. Essa é daquelas que eu largo pelo caminho e nunca sei se vou continuar. Tem muito tempo que estou vendo, desde o ano passado. E só tem 8 episódios. E foi isso que me decidiu terminar, faltavam poucos episódios. A série é baseada no caso de Michael Peterson, novelista de sucesso, mas há tempo sem entregar nenhum manuscrito. Não sei se eu indico essa série.
A história começa com a morte da esposa, Kathleen Peterson. O casal é interpretado por Colin Firth e Toni Colette. Ela morreu na escada da mansão que eles viviam. Ele que a encontra, desesperado chama o socorro, mas quando chega ela não está mais viva. E o filho o consola porque ele está desesperado. Tudo parece que foi um acidente, mas o excesso de sangue assusta. Esse caso nunca ficou provado, até porque a só há uma versão, a do marido. Segundo ele, eles tinham tido uma noite prazerosa, ficaram bebendo na piscina, ela entrou antes e ele a encontrou ensanguentada. Segundo ele, os dois eram muito felizes, tinham uma animada vida social, filhos, netos, amigos, casa sempre cheia. Outro motivo que me fez pensar em terminar é que Michael detestou a série, não concordou e odiou Firth por não gostar nada do ator nem de sua interpretação.
É o segundo produto americano que vi recentemente que eu estranhei a justiça. Com o tempo descobrimos que a família estava muito, mas muito endividada. Continuavam vivendo no luxo. Kathleen que trabalhava exaustivamente. Michael vivia para os prazeres da vida. A polícia descobre no computador do Michael fotos de homens. Ele declara que a esposa sabia, que ele só olhava, às vezes conversava com os homens, mas não ia mais além, muito raramente. Quando a polícia descobre essas imagens, Michael percebe que terá que contratar um grande e caro advogado (Michael Stuhlbarg). Eles vão vendendo tudo da família pra poder pagar. Todo o patrimônio que era da Kathleen e que ele usufruía sem o menor pudor. Patrimônio que seriam dos seus filhos. Michael tinha filhos de outros casamentos além dos que tinha com ela. Sim, pode ser que Kathleen soubesse que o marido era bissexual e que gostava de se encontrar com homens. Mas eu conheço alguns casais que as mulheres nem desconfiam, ou fingem não desconfiar. A geração de Michael não costuma assumir publicamente relações entre pessoas do mesmo sexo e acho sim que ele gostava da Kathleen. Os homens que soube gostavam de casar com mulheres, sempre que se separavam casavam com outra mulher e continuavam tendo casos extra conjugais. Tinha casal que a mulher sabia e vários que não. Os homens dessa geração gostam do conforto do lar proporcionado por mulheres, filhos, a segurança profissional de aparentar ser uma família padrão. Então não estranhei. É uma queixa do Michael, que a série teria focado nesse fato. Concordo com Michael que não parece interferir muito. Sim, pode ser que o casal brigou por isso e ela morreu, mas podem ser outros motivos, já que a situação financeira dos dois estava muito precária muitas dívidas. Só Michael sabe o que de fato aconteceu. Alguns filhos são Dane DeHaan, Olivia DeJonge, Sophia Turner e Patrick Schwarzenegger. Alguns desses filhos aparecem crianças.
O que eu estranhei é que Michael é procurado por um documentarista francês Jean-Xavier de Lestrade (Vincent Vermignon) para filmar todo o processo. O advogado concorda, e a equipe passa a filmar tudo. As conversas com o advogado, e até mesmo o tribunal. Achei estranhíssimo.
Só no julgamento é que comecei a ter quase certeza que foi Michael. Durante o julgamento descobrem que no passado, uma mulher que Michael conhecia, na Alemanha, teria morrido por ter caído da escada e tinha vários machucados também na cabeça como Kathllen. Essa morte foi dada como acidental. Com esse fato, Michael vai preso. Mas é fato que tudo é muito inconsistente. Ele fica muitos anos preso.
Foi nessa parte que parei, voltei um pouquinho, larguei de novo, até decidir meses depois em finalizar. É quando aparece Sophie Broussard de Juliette Binoche. Ela era uma das editoras do documentário e começa a se corresponder com Michael. Ela tem família e filhos, vive em Paris, mas começa a ter uma aproximação esquisitíssima com Michael. Ele deve ter adorado. Mulheres costumam ser muito fiéis a presidiários. Visitam regularmente, cuidam de tudo. E eu fiquei pasma que ela se muda para a cidade dele nos Estados Unidos. Lembram que ele não tinha mais nada? Então ela passa a bancar um apartamento lá, ir e vir para Paris. Óbvio que quando ele é solto, ele não vai pra Paris com ela e diz quer ficar sozinho. Usou o quanto pode a mulher e a descartou quando não era mais necessária. Colin faz caras ruins quando vê o pequeno e aconchegante apartamento que ela montou, mas isso pode ser uma escolha da direção, não dá pra saber se aconteceu. Ela diz que ela e os filhos dele vão bancá-lo já que ele não tem mais nada. E mesmo assim ele se livra dela sem nenhum remorso. Mas não me surpreendeu. A série é sutil, mas dá pra ver que ele gostava de viver dos prazeres. Com Kathleen passava paquerando no computador, academia e locadora os homens, vivia para atender os seus prazeres, enquanto sua mulher trabalhava exaustivamente e sustentava o luxo deles. Ele não ia querer viver com o pouco da documentarista.
Assisti Abraço de Mãe (2024) de Cristian Ponce na Netflix. Eu já tinha visto o cartaz do filme no streaming e como gosto de fantasminhas, porque sábado é dia de fantasminhas, eu me programei pra ver. Que filme incrível, impecável e angustiante! Muito angustiante!
O elenco todo é muito bom. Começa com a personagem da Chandelly Braz e seu abraço de mãe com a filha da personagem. Vemos que tem algo no leite que ela dá para a criança, elas vão a um parque de diversões, locação clássica de filme de terror. A fotografia deLeandro Pagliaro e Franco Ceranaé belíssima! Depois da mãe dopar a filha, as duas dormem pesado e vemos a casa pegando fogo. O filme segue para o futuro. Eu gostei das lacunas, das dúvidas, cheguei até ler críticas com certezas, mas não há certezas e eu amei isso no filme, cada um interpreta como quer.
Aparece então uma bombeira da incrível Marjorie Estiano. Ficamos na dúvida se foi ela que salvou ou tentou salvar mãe e filha do incêndio, ou se é mais futuro ainda e ela é a menina. Essa lacuna fica mais clara, mas também pode ser interpretada de outra forma. A bombeira consegue sair da parte administrativa, ela gosta de ir a campo. Tinha sido afastada depois de ter travado em um incêndio. De novo pensamos se foi aquele incêndio do começo. Os bombeiros são atores incríveis Val Perré, Reynaldo Machado e Rafael Canedo. Thelmo Fernandes faz uma participação e é o chefe da corporação.
O grupo termina um atendimento e é chamado logo para outro em uma casa caindo aos pedaços onde funciona uma casa de longa permanência. A proprietária é a personagem da incrível Ângela Rabelo. Esse foi um dos seus últimos trabalhos e lançado postumamente. A casa é incrível. Imagino que em alguns momentos fizeram cenários, mas o casarão antigo, detonado, é assustador. Está caindo uma chuva torrencial, então nenhum pedido de reforço é atendido porque o Rio de Janeiro está alagado. Em matérias contam que quiseram se inspirar em um alagamento da cidade após uma chuva torrencial. Agora devem ter tido muitos outros pela crise climática.
Os personagens dessa casa são assustadores. Craque do gênero eu ficava o tempo todo na dúvida se existiam mesmo ou eram fantasminhas. O chamado que eles receberam dizia que a casa tinha desabado uma parte. Eles avisam que os internos vão ter que evacuar, que vão chegar ambulâncias, mas ninguém quer sair dali. E todos ignoram as ordens dos bombeiros.
O cartaz na Netflix é com essa imagem assustadora. Foi ele que chamou muito a minha atenção, até eu perceber que era a Marjorie Estiano nele.
Assisti Let them all talk (2020) de Steven Soderbergh na HBOMax. Que grata surpresa! E que elenco!
Meryl Streep é uma renomada escritora. Ela vai de navio para Londres para receber um prêmio. Leva duas amigas afastadas da faculdade e seu sobrinho de Lucas Hedges. A escritora precisa entregar um esboço ou o livro, então fica a maior parte do tempo no quarto. Ela sai para nadar sempre no mesmo horário. E janta com as amigas todas as noites.
As duas amigas são Candice Bergan e Dianne West. Uma delas sustenta o filho e a família dele porque ele faliu na empresa que tinha. A outra amiga é vendedora de uma loja de lingeries. Ela é a que aproveita mais a travessia. Vai ao bar, ao baile, não perde os eventos sociais do navio. E procura um marido rico para tentar sair da situação difícil que se encontra. Ela culpa a escritora dos seus fracassos. A outra amiga fica mais no quarto lendo.
A agente de Gemma Chan vai escondida e usa o sobrinho para saber como está o livro. Há dois outros personagens. Um famoso escritor de livros de suspense que as amigas leram tudo interpretado por Daniel Algrant. E um outro personagem misterioso de John Douglas Thompson.
Assisti a peça Nós, os justos de Kiko Rieser no Teatro Itália. Que espetáculo! Que texto!
E que elenco afiado Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú. É uma empresa, começa com a demissão de um funcionário, por corte de pessoal. Ele não aceita. 8 anos trabalhando na empresa, dedicado, ninguém mais é demitido, ele quer saber o real motivo. Começa então uma sucessão de conversas sobre a visão de cada um sobre os fatos e quem estará de fato falando a verdade? As conversas são sempre desencontradas. A mulher que caiu na rádio corredor da empresa nunca quis que o desconforto que ela teve com o funcionário ficasse público. Como nada era muito explícito e só uma impressão, ela só queria falar com uma colega de trabalho que espalha tudo. E esse tudo vai ficando desproporcional e sem possibilidades de retorno.
Eu fiquei exausta com tanto texto, imagine o elenco. A tensão vem ao catártico final. Inúmeras questões que nada tem a ver com o fato inicial vão sendo expostas, espalhadas. Quem espalhou? E tudo vai ficando insustentável! Que espetáculo genial!. Sim, os justos, os justiceiros.
Foto de Ronaldo Gutierrez
Excelente luz de Rodrigo Palmieri, cenário brilhante de Bruno Anselmo.
Amei os figurinos deMarichilene Artisevskis e o que a impecável direção vai fazendo com eles.