Assisti Apocalipse nos Trópicos (2024) de Petra Costa na Netflix. Eu queria muito ver esse documentário que vem ganhando muitos prêmios nos festivais, principalmente internacionais. Petra Costa é uma das grandes cineastas brasileiras. Entre os prêmios de Apocalipse nos Trópicos estão International Documentary Association (IDA) de Melhor Produção e Melhor Roteiro. Dividem o roteiro Alessandra Orofino e David Barker.
Apocalipse nos Trópicos fala da ascensão evangélica no Congresso. Um parlamentar conta todo eufórico que a participação evangélica era pequena no Congresso e que agora somam-se mais de 100 parlamentares. Me assusta profundamente que a religião paute a política como acontecia no feudalismo. É um grande retrocesso.
Pastores que decidem em quem os fiéis irão votar. Quase como uma guerra santa. Sem questionar, fiéis votam cegamente como se fosse uma luta do bem contra o mal. Sem analisar os candidatos, simplesmente porque alguém que se acha superior aos outros define quem deve ser votado.
Muito interessante quando Petra Costa fala do apocalipse na bíblia. As imagens são de obras sacras no MASP. A documentarista fala que no apocalipse jesus descia a terra para a guerra santa e que antes do juízo final há muita dor e sofrimento. Petra Costa mostra como a interpretação do apocalipse mudou com o tempo. No capítulo Guerra Santa, ela fala que no século 19, jesus só desceria a terra depois de 1000 anos de paz. Quanto mais se trabalhasse pela paz na terra, mais rápida sua volta. Em 1800 essa visão foi completamente invertida. E agora quanto mais horrível o mundo estiver, mais perto do fim estamos. Apocalipse nos Trópicos é muito bem fundamentado, editado, inteligente. Que venham mais prêmios! Que esse obscurantismo desapareça por mais utópico seja esse desejo. Que diminua já seria um começo.
Assisti Uma Vida Honesta (2025) de Mikael Marcimain na Netflix. Eu procurava por filmes suecos e apareceu esse. É mais ou menos, mas gostei de algumas discussões.
O debate que me interessou talvez não seja o mais esperado. Eu gostei do filme falar daquele período complexo do jovem que precisa decidir qual ensino superior escolher. Eu não sei se continua tão ruim como era, mas ainda se priorizam as profissões padrões, com poucas variações, negligenciando outras e colocando inúmeras sob holofotes preconceituosos em profissões diferentes. Pouco auxiliam jovens em uma análise mais abrangente de opções. O protagonista, Simon Löof, queria ser escritor, mas acha que não tem nada relevante a dizer, bom, mas uma faculdade de literatura ajudaria, até mesmo em repertório, mas ele resolve racionalizar a sua escolha. Vai para profissões óbvias, escolhe direito e tenta performar logo. Acho que esse é o maior problema e pode ser uma questão atual, resultado rápido como acontece na internet. Ele sonha ter um cargo na ONU, engraçado que é o segundo filme que fala de um aluno universitário escolher uma profissão focando na ONU. Ele é de classe média, mas faz um esforço descomunal para alugar um quarto em um apartamento de ricos. Quer se aproximar de estudantes ricos de direito para facilitar o acesso futuro. Tudo é calculado racionalmente. Os colegas ricos só o exploram. As festas no ap são caríssimas, como ele não tem recursos, reduzem o valor se ele ficar de garçom, limpar o ap. Tem livros na estante, mas não podem ser manuseados, são pra vender. Tudo é comércio. Na faculdade ele fica próximo de um casal que parece amar a escolha pelo direito, enquanto o protagonista fica só entediado. Esse foi o debate que mais me interessou.
Entediado, ele vira alvo fácil de um grupo anarquista. Ele se encanta com o modo de vida deles. O dono da casa é um ex-professor defensor do anarquismo, a casa é repleta de livros que podem ser lidos. É uma mansão antiga. O professor é anarquista, mas como os jovens, gosta de ter o dinheiro dos ricos para viver no conforto. Boas bebidas, comidas, luxos, joias. Eles não querem ajudar ninguém, querem o dinheiro só pra si. Além da aventura, o rapaz ainda se apaixona pela linda personagem de Nora Rios. E sim, ele pegou os relógios porque quis, poderia não ter agido ao comando. E mesmo que tivesse feito em um impulso, poderia não querer mais depois e se afastar. Claro que é difícil porque estava apaixonado, mas poderia se recusar a participar dos crimes. Ele escolheu, teve livre arbítrio. Sim, o grupo era manipulador, mas isso não o inocenta. O final é bem ruim. Ele resolve finalmente se afastar, depois que descobre que foi usado até mesmo pela jovem. Ela diz o que há de pior no filme, que agora ele tem o que escrever. Ninguém precisa de algo sensacionalista para escrever. Dá pra escrever mesmo tendo-se uma vida morna.
Assisti Amores Materialistas (2025) de Celine Song na HBOMax. Na verdade eu insisti pra ver esse filme, larguei várias vezes. Esse filme tem inúmeros problemas, principalmente de roteiro. É um equívoco só!
A sensação que tive é que o roteiro do filme foi pensado para personagens de uns 20 anos, mas como queriam os queridinhos da vez, Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans, mudaram para pessoas de mais de 30 anos. O trio merecia um roteiro melhor. E adaptaram muito mal. O roteiro é pueril. Dakota trabalha em uma agência de encontros para ricos e é muito bem sucedida na carreira. Há filmes pra promover cruzeiros, esse deve ser pra promover casamentos que são altamente rentáveis. Essa mania de gastar fortunas em casamentos tem no Brasil também, apostam fortunas em uma noite pra todo mundo falar mal depois e se separar um pouco depois também. A protagonista está esfuziante. Não só conseguiu um encontro com um bom partido para a cliente, como deu certo e eles vão casar. A agência deve ganhar uma grana pra promover os encontros e ainda mai8s nas comissões da festa de casamento. É um comércio muito rentável de sonhos de vento. As mulheres escolhem os homens como se fossem comprar algo na prateleira, branco, mais de 1,80, rico e uma infinidade de detalhes imbecis como cor do cabelo, olhos. A "sortuda", se é que casamentos são sorte, faz uma bela festa e o irmão do noivo se interessa pela casamenteira. Ela diz que o perfil dele é perfeito, que não vão faltar candidatas na agência porque ele é o unicórnio, mas ele insiste que quer ela. O filme tenta desconstruir o amor romântico, então nada é apaixonado, explosivo, tudo é calculado. Mas soa falso de qualquer jeito. Há um retrocesso em colocar a vida em casamentos em vez de suas carreiras e o Brasil copiou essa bobagem.
Chris Evans faz o triângulo amoroso. É o pior personagem do filme que tem comportamento adolescente. Ele vive em um ap com mais dois imbecis, bem adolescentes, camisinha suja no meio do caminho, mulheres, bebidas. Pra piorar a vida profissional dele é um monte de equívoco. Ele é ator de teatro, e sonha ter sucesso na área com 37 anos. Com essa idade ele já é um ator. Sim, viver de teatro é financeiramente difícil, vive-se com pouco, mas dá pra dividir um ap ou alugar uma quitinete. Nos Estados Unidos é muito comum quarto e banheiro particular. Em vez dele trabalhar em áreas afins, dar aulas, ter cursos. Ele é garçom em casamentos. Eventos avulsos pagam muito bem, daria pra ele viver confortável, sem luxo, em um pequeno ap. Mas quem faz bico de garçom tem menos de 30 anos e tá começando na carreira. Quem é ator com mais de 30 anos, já completa a renda com trabalhos na área. E não é miserável como vive no filme. O roteirista não tem ideia como ator de teatro vive. E ainda tem preconceito.
Pra desconstruir o amor romântico, tudo é sem graça. E é falso, porque o filme só fala de casamento. Na primeira noite no apartamento do milionário, ele já entrega a chave pra ela. Sim, ele sabia que ela trabalhava na agência já que casou o irmão, mas milionário é sempre muito cauteloso em qualquer negócio. O apartamento não tinha câmeras, empregados e ele não tinha segurança. Ele vivia no fantástico mundo de Oz onde não há violência. Que bom que a vida é muito mais do que viver para casamentos, que bom que o mundo evoluiu ou pelo menos deveria.
Assisti O Filho de Mil Homens (2025) de Daniel Rezende na Netflix. Queria muito ver esse filme tão elogiado! É baseado no livro de Valter Hugo Mãe. Eu li um único livro desse autor, agora quero ler esse. Que filme, que poesia! Me emocionei demais! Tudo é lindo! É um filme meio fantasioso, mágico, com várias histórias que se entrelaçam de alguma forma. Poesia pura!
Rodrigo Santoro está majestoso. Ele é um pescador solitário que tinha o sonho de ter um filho. O filme se passa em um pequeno vilarejo e ele espalha bilhetinhos que quer ter um filho. Até que surge a personagem de Teka Romualdo dizendo que tem um garoto que ficou órfão interpretado pelo ótimo Miguel Martinez. O pescador tinha um boneco que o acompanhava em tudo quanto era lugar, que ele falava com ele, é muito lindo. O filme foi realizado em Búzios e as paisagens são lindas!
São muitas histórias como da Juliana Caldas que adoro. A casa dela é a coisa mais linda. Tudo é milimétrico. Cada casa e ambiente parece ter o sentimento do personagem. Que filme sensorial. Ela está grávida e a médica é a maravilhosa Tuna Dwek casada com o personagem de Marcello Escorel. Augusto Madeira também está no elenco. A narração é de Zezé Motta.
São muitas histórias. Duas tristes do jovem que gosta de olhar homens e sofre por isso. Jonnhy Massaro arrasa. A mãe de Inez Viana tenta resolver a situação com um casamento arranjado com uma moça que sofreu abuso do namorado, da ótima Rebeca Jamir, que atriz linda e talentosa. A relação de amor que vai se construindo com os personagens é emocionante! "Família pode ser feita de muitas coisas." O Filho de Mil Homens fala muito de amor, acolhimento e respeito tão urgente nesses tempos.
Ouvi a Restrospectiva Spotify 2025. Nossa, como gosto, na verdade continuo ouvindo. Cada ano eles inventam uma moda mais legal que a outra, é sempre uma delícia! É um momento muito, mas muito aguardado.
Esse ano fizeram clubes pra gente. Eu sou dos Cronicamente Suaves. Acho engraçada a subjetividade, mas e daí? Amei a florzinha vibe hahahaha.
Desde o ano passado eu comecei a criar playlists para o ano. Não tem o número do ano e sim um nome que tem a ver com o sentimento do ano. Continuo ouvindo as playlists anteriores, mas acabo ouvindo mais a nova. A do ano tem as músicas que mais estou gostando de ouvir, e as que vou angariando em filmes, entrevistas. Emgraçado que algumas músicas não vingam no ano seguinte, eu passo a não querer mais ouvi-las. Outra mania recente é colocar e tirar músicas da fila. Gosto do aleatório da playlist do momento, mas também gosto de por e colocar. Até o álbum da série Maria e o Cangaço que é maravilhosa, não costuma entrar em mais ouvidas, aleatoriamente, não aparece no instagram, então se não for com o recurso de colocar pra ouvir as músicas não aparecem. Esse costume é bem recente, talvez influencie na Retrospectiva do ano que vem.
Zaz e Polo & Pan são basicamente os artistas desse ano, os dois são franceses e vão fazer shows em São Paulo no ano que vem. Já vinha ouvindo antes, mas se concentraram mais nesse ano, tem lógica estarem entre os mais ouvidos. Pauline Croze e Benjamin Clementine são os artistas do ano passado e que ainda amo. Nina Simone é a artista da vida.
Engraçado que Música Popular Brasileira foi o gênero mais tocado, mas as músicas não entraram nos mais ouvidos. Queria entender esse mistério.
Ri muito da idade do som. Foi a brincadeira do ano mais zoada. E no meu caso foi esquisita também. Todos os músicos e músicas que ouvi e estão na retrospectiva são recentes, com pouca exceção. Talvez a idade musical tenha a ver com o fato de às vezes eu ouvir música clássica, mas reparem que não apareceram, só nos álbuns surgiu um de idade musical mais antiga.
Álbuns foi outra novidade esse ano. Eu que gosto de ouvir música no modo eclético, ouço pouco álbuns. Zaz eu adicionei várias, mas em geral de álbuns diferentes.
Eu gosto muito que artistas que mais ouvimos enviam vídeos de agradecimento. Adorei que o Jota Pê estava na relação de vídeos que também tinha Billie Ellish, Aurora, Lady Gaga. Esse quadro é mais recente. É muito gostoso ouvir um agradecimento de um artista como se fosse exatamente pra vc e fiquei feliz de ter um brasileiro que adoro esse ano. Também há uma seção de vídeos dos que mais gostamos de ouvir.
Eu ouvi 3229 músicas esse ano. Eu tenho conhecido músicas diferentes também porque semanalmente o Spotify cria o Descobertas da Semana inspirado no que gostamos de ouvir e algumas músicas eu curto e ponho na playlist.
E ouvi 57.894 minutos. Foi o ano que ouvi mais minutos. A playlist com as músicas que mais gostei de ouvir em 2025 tem 6h e 16 minutos. Estou terminando de ouvir tudo.
E lá vou eu ler as retrospectivas anteriores pra ver o que mudou.
Terminei de ler Três (2021) de Valérie Perrin da Intrínseca. Eu queria muito ler um livro dessa autora tão elogiada. Mas acho que é elogiada em um nicho que é um pouco distante do meu. Cheguei a abandonar, mas eu tenho uma dificuldade enorme em abandonar livros. Fui deixando de lado, lendo muito raramente, vários outros livros passaram na frente, até que insisti e terminei. Eu não tive identificação alguma com a autora. O que mais me incomodou é que ela gosta de enganar o leitor, fazer o leitor de idiota sonegando informações, nome de personagens, suspense com o que não tem graça. Enfim, odeio autor que resolve brincar e se divertir com a cara do leitor.
Obra Jovem a Janela (1930) de Suzanne Valadon
O livro conta a história de três amigos que eram inicialmente inseparáveis. Logo percebemos que em algum momento eles se perderam e se afastaram. A autora alterna no tempo na narrativa. E sempre que estamos prestes a saber algum detalhe daquela trama, ela salteia no tempo de novo pra não ficarmos sabendo. Meio novela de antigamente, a autora despeja tudo só bem no finalzinho, quando a trama já perdeu completamente o impacto, se é que teve em algum momento.
Obra de Claire Basler
A sensação que tive, e posso estar enganada, é que a autora escreve de universos que desconhece por completo, tal a artificialidade dos personagens. É bastante leviana com alguns temas e ainda faz suspense com eles. Ela é criticada por escrever livros longos demais e tenho que concordar, porque é desnecessário. Dá a impressão que ela quer nos enrolar bastante pra fazer suspense pra revelar os segredos ao final. Tudo soa falso. Há inúmeros leitores que amam a autora, que leram todos os seus livros, que tem verdadeira adoração pelos seus textos. Eu não sou uma dessas pessoas. Não tive identificação alguma com a autora.
Fui ao concerto Uma Viagem Utópica com o SIGMA Project na Estação Motiva Cultural. É um excelente grupo espanhol de saxofones formado porAlberto Chaves, Andrés Gomis, Ángel Soria e Josetxo Silguero. Eles tocaram um lindo repertório, eclético e diferente. Muito bonito, gratuito e con teatro quase lotado. Foi uma única apresentação.
Foto de Aitor Izaguirre
Uma das obras foi Tambor do compositor brasileiro Rodrigo Lima. Muito interessante os saxofones fazerem sons de tambores, deve ser uma obra de difícil execução. O compositor estava na apresentação.
Muito instigante a Cantes de viento y nieve: Espirales de llanto de Mauricio Sotelo, parecia mesmo que estava ventando. E muito bonita Chases anónimas – O Virgo splendens de Ars Nova. Saindo um pouco das obras atonais tocaram duas de Domenico Scarlatti que gosto muito:Sonata em lá menor, K. 532: Allegro e Sonata em Fá maior, K. 350: Allegro. O SIGMA Project finalizou com uma bela obra do Philip Glass que gosto tanto, Concerto para quarteto de saxofones.
Assisti Faça ela voltar (2025) de Danny e Michael Philippou na HBOMax. Esse filme é fortíssimo! Precisa estar preparado pra ver. O que mais assusta não é o sobrenatural e sim o que uma pessoa é capaz de fazer acreditando no sobrenatural. Sábado é dia de fantasminhas!
Sally Hawkins está impressionante! Que atriz. Dois irmãos ficam órfãos. A futura mãe só quer ficar com a menina. A assistente social convence ela a ficar com o rapaz também. E fala para o rapaz aguentar três meses até os 18 anos e depois pedir a guarda da irmã. Adoção é um processo sério, mas o filme fala daqueles erros que algumas pessoas fazem pra favorecer conhecidos. Ficamos sabendo que essa mulher perdeu a filha. Ela trabalhava mais de 20 anos como psicóloga no departamento de adoção, era muito respeitada. Então auxiliam ela adotar a jovem. A questão é que a jovem é muito, mas muito parecida com a filha que morreu. Claramente ela queria substituir a filha por outra e com isso tentar transforma a filha na semelhança da outra. Não por gostar da menina, mas pela semelhança com a que morreu. Dificilmente um processo tradicional de adoção aceitaria isso. Como ela era da equipe, muito respeitada, não fazem a tradicional visita a casa que vai receber os jovens. Mesmo que a psicóloga arrumasse, ia ser difícil não perceberem alguns detalhes estranhos como a piscina vazia e sem proteção para receber uma deficiente visual. E não convenceriam a mulher a aceitar o irmão. Claro que dá tudo errado.
Os dois jovens estão muito bem, Sora Wong e Billy Barratt. Torcemos muito para que ele consiga salvar a irmã.
O filme é muito assustador. Fanáticos sempre assustam e a mãe é fanática pelo sobrenatural, faz barbaridades acreditando em resultados. Jonah Wren Phillips é o que mais sofre no filme. Jamais eu deixaria esses jovens participarem do filme. Sim, muitas cenas podem ser ajustadas artificialmente, mas achei fortes demais para adultos, que dirá pra crianças.