quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

O Compositor Delirante

Assisti a peça O Compositor Delirante no Espaço Parlapatões. É escrito e interpretado por Daniel Kronenberg. A preparação vocal e corporal é de Gabriel Bodstein. Genial! O texto fala de Ludwig Van Beethoven e suas inquietações.

É impressionante ver um ator criando os delírios de um compositor. Beethoven está no fim da vida, surdo, compondo sua obra prima. Enérgico, intenso, foi muito impactante ver a catarse de um gênio como Beethoven. Montagem inteligente, instigante. Para ter diálogos, Kronenberg criou um telefone onde gênios compositores mortos e musas falam com ele. O ator fala do processo de criação caótico, anárquico. Demais ver alguém falar da genialidade, não falar de lugares limpos e vazios, que só funcionamos na organização. Muito bom ver o contraponto a tudo o que nos impõe ao ser criativo, a aqueles que se sentem bem entre os seus projetos, livros, música e pensamentos, mesmo que caótico a outros olhos. Amei! O Compositor Delirante fica em cartaz até 15 de fevereiro.

Beijos,
Pedrita

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Imperium

Assisti Imperium (2016) de Daniel Ragussis no TelecinePlay. Nunca tinha ouvido falar desse filme, soube que foi feito mais para ser visto na televisão. É um filme muito, mas muito desconfortável sobre neonazismo, preconceito, violência e inspirado em fatos reais.

Daniel Radcliffe faz esse policial da FBI que é escolhido para se infiltrar em um grupo neonazista para tentar descobrir onde está o césio que foi roubado e será usado em ataques. Ele é um policial que sofre bullying, todo certinho e precisa se caracterizar para parecer que é um ex-soldado que lutou no Iraque.  Achei muito estranho ele ficar tão seguro de repente. Inicialmente ele se infiltra entre jovens e vai aos poucos mudando de grupos organizados para investigar. O primeiro grupo é daqueles que atacam pessoas em ruas, batem em negros nas ruas, são violentos, depredam. É insuportável ver o rapaz tendo que fingir, indo a passeatas, sendo hostilizado nas ruas, nós sabendo que aquilo o incomoda também, mas tendo que se passar por neonazista também.

Depois ele segue para um grupo armado até os dentes que se prepara para ataques em massa. Um palestrante riquíssimo e escritor de livros racistas muito bem sucedido, que se diz somente simpatizante dos grupos e não atuante na violência. Inclusive ele diz que não é proibido nos Estados Unidos fazer discursos de ódio. E por último, o policial se identifica com uma família racista, mas mais tranquila. O pai não raspa o cabelo, eles tem dois filhos lindos sendo criados como racistas, mas são informados, gostam de música clássica, vivem confortáveis, são afetivos. Aparentemente mais pacatos que os outros. Gostei do filme mostrar que nem sempre é o que parece. Imediatamente identificamos os neonazistas jovens que ele se une, mas embora violentos e perigosos no cotidiano, há outros grupos bem mais disfarçados, que planejam grandes ataques.
No elenco estão Toni Collette, Tracy Letts, Sam Trammel, Nestor Carbonell e Chris Sullivan. Eu particularmente não gostei do discurso final da policial que rotula o agente que se infiltrou. Muito simplista! Interessante que o filme não é simplista, mostra os vários lados dos personagens.

Beijos,
Pedrita

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A República dos Sonhos

Terminei de ler A República dos Sonhos (1984) de Nélida Piñon da Francisco Alves. Eu quis ler esse livro depois que a autora em uma entrevista disse que é o livro dela mais traduzido e lido no mundo. E senti uma culpa enorme de eu não ter lido. E também que é uma saga da família Madruga inspirada na família dela que também é de origem galega como o protagonista. Eu adoro livros grandes, sagas, histórias ricas de detalhes. Eu achei esse livro em um sebo por R$ 20,00, bem razoável para 761 páginas de letras pequenas. Agora há uma edição em capa dura da Record com custo bem salgado. O português Carlos Faria do Geocrusoe também leu e comentou aqui.

Obra Casal (2004) de Cristina Canale

Nélida Piñon conta a saga de Madruga, sem ordem cronológica como são as lembranças e os pensamentos, vem fora de hora, no meio da narrativa, pula para outras datas, muito interessante. Gostei demais de A República dos Sonhos. Começa com Eulália, a matriarca, na verdade a família é patriarcal. Madruga é o líder, duro e autoritário. Eulália era dona de casa. Ela está morrendo. O livro passa então em idas e vindas na história da família até sua morte.

Obra Poucos Trabalham - Muitos se Divertem (1987) de Lia Mittarakis

Os filhos são bem diferentes. Alguns morreram. Muitos segredos. Bento é ambicioso. Antônia também casa com um ambicioso. Tobias é revolucionário, bem como a neta Breta. Todos ricos em camadas, sentimentos. Outro fascinante é Venâncio. Ele veio no mesmo navio que Madruga e tornam-se melhores amigos, mas são muito diferentes. Os dois amam Eulália. Madruga é machista e tem casos extra conjugais que ofendem Venâncio que acha que Eulália devia ser respeitada e muito amada.Venâncio é sem ambições, mais tranquilo profissionalmente, muito reservado, pouco se sabe se sua história antes do Brasil. 
Obra Outra Primavera Maravilhosa (2013) de Cybèle Varella

Gostei muito porque em um determinado momento aparece um diário do Venâncio. Ele pede para Eulália cuidar e não ler, por muito tempo ela obedece até que passa a ler. Nós lemos alguns fragmentos, ora lidos pela Eulália, ora por Breta. É incrível porque passamos a ver a família por outra perspectiva por outro olhar. Isso acontece sempre porque alguém dessa família olha e pensa sobre um integrante e sempre por perspectivas diferentes. A República dos Sonhos é fascinante. E muito incrível por manter alguns segredos sem serem revelados. Obra de arte!

As artistas plásticas são do Rio de Janeiro como a autora.



Beijos,
Pedrita

sábado, 6 de janeiro de 2018

Entre Irmãs

Assisti Entre Irmãs (2017) de Breno Silveira na TV Globo. Eu queria muito no cinema, com a Patry inclusive do blog Marion e Sua Vida, porque ela, como eu, é fã da Marjorie Estiano. e eu adoro o Breno Silveira. Mas o filme só estava em um único cinema e uma única sessão, às 22h. Piorou sensivelmente a possibilidade de ver filmes brasileiros nos cinemas nos últimos anos. Como os cinemas resolveram a questão das cotas com comédias que dão bilheteria, ficam só nesse gênero. Então 99% dos filmes brasileiros lançados no ano ficam praticamente secretos. Já passou da hora de mudarmos isso. Eu quero poder ver os filmes que são lançados em vários horários e em várias salas de cinema. Nem estou dizendo que precisam ser salas demais e horários demais, mas os filmes precisam ser melhor distribuídos. Nem no Projeta Brasil entrou, foi o primeiro filme que procurei na lista. Ficam falando que Entre Irmãs foi um fracasso de bilheteria, mas um filme que ninguém consegue ver não poderia ter resultado diferente. Entre Irmãs na verdade foi um fracasso de distribuição. Por sorte a TV Globo colocou como série, dividindo em capítulos e pude ver essa maravilha! É baseado no livro O Cangaceiro e a Costureira de Frances de Pontes Feebles que quero muito ler.

O filme conta a história de duas irmãs que vivem no sertão nordestino. Elas são órfãs, vivem com a tia, e as três são costureiras. Vivem costurando na casa de um coronel da região. Os cangaceiros aparecem e levam uma irmã. A tia fica doente e inconsolável até morrer. Amo a Marjorie Estiano que está maravilhosa, mas que belíssima interpretação também da Nanda Costa e que personagem denso. A tia é interpretada por outra grande atriz, a Cyria Coentro.

Por sorte a outra irmã que fica sozinha recebe um convite de casamento de um rapaz da alta sociedade de Recife. O rapaz é interpretado pelo Romulo Estrela que também está ótimo. Igualmente adoro esse ator.

Muito interessante colocar que a que se realiza no amor é a que entra pro cangaço e tem um romance e casamento com o líder do bando interpretado brilhantemente por Júlio Machado. A sonhadora, que queria um príncipe e conseguiu, descobriu logo que tudo era ilusão.

O elenco é todo incrível: Letícia Colin, Claudio Jaborandhy, Fábio Lago, Ângelo Antonio e Rita Assemany. E que fotografia maravilhosa de Leonardo Ferreira! Amei Entre Irmãs, inesquecível! 

Beijos,
Pedrita

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Outros Jeitos de Usar a Boca de Rupi Kaur

Terminei de ler Outros Jeitos de Usar a Boca (2015) de Rupi Kaur da Planeta. Ganhei esse livro de poemas. O nome original é Milk and Honey. Confesso que achei estranho alguém me presentear com ele, mas fui ler sobre a autora e me surpreendi e depois com os seus poemas. Rupi Kaur nasceu na Índia, mas aos 5 anos foi para o Canadá.

Obra Papoulas de Helen Lucas

Rupi Kaur é feminista e me surpreendi com os poemas sobre relacionamento no Canadá, não tinha ideia que o machismo no país é muito parecido com o brasileiro. As ilustrações, também da autora, são simples e fortes. Na primeira parte, A Dor, Rupi Kaur fala sobre a invasão de corpos sem autorização. É o capítulo mais impactante a forma como ela fala de estupro, assédio. Com poucas palavras e com tanta força:

Trecho: "o estupro 
vai te rasgar 
ao meio

mas
não vai ser
o seu fim"

E os menos óbvios cheios de significados que muitas vezes só mulheres conseguem ler nas entrelinhas:

"quando minha mãe abre a boca
para conversar durante o jantar
meu pai enfia a palavra silêncio
nos seus lábios e diz que ela
nunca deve falar com a boca cheia
foi assim que as mulheres da minha família
aprenderam a viver de boca fechada"
Obra de Barbara Kruger

Depois vem o capítulo Do Amor onde a autora fala muito de submissão e da posse ao corpo da mulher. O que interessa é o corpo. É onde surge o poema que traz o nome do livro no Brasil:

"você fala demais
ele sussurra no meu ouvido
conheço jeitos melhores de usar essa boca"

Após o amor vem A Ruptura e por último A Cura quando a autora fala de auto-estima, de ser feliz consigo mesma de amar como é. Fala de temas muito do universo feminino como pelos, menstruação, padrões de beleza:

"você
é a sua própria
alma gêmea"

Outros Jeitos de Usar a Boca de Rupi Kaur esteve em primeiro lugar na lista de mais vendidos do The New York Times. Gostei muito da forma como a autora coloca as palavras, pela força de dizer o simples de forma tão direta. O livro que ganhei está na 14ª edição. 



Beijos,
Pedrita